terça-feira, 2 de agosto de 2011

O índio brasileiro é o herói do western americano


Arder o prociso índio!
arder-lhe a procissão em que o escancararam, signo, bandeira, Baby Flag, ardeu.
vergonhas raspadas, o índio é de cera!
Tarados cor de perú: estáis hoje onde estáveis ontem mas
esse aí,
ecce homo, ecce indú, está indu adiante
está indo o indu adiante desde o princípio dos tempos


Fogo a esse folclore
estou chaman do -não ouvem?
a nova encarnação do homem
chaman aquele que chama

virá, que eu vi!


sexta-feira, 29 de julho de 2011

Tuas presas reinando sobre o não-coral

(Beleza, Langor & Elegância)


um coral um colar

um cunhal letal à jugular
um punhal punhado de cores
estocado

eu brado.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

sambinha no arkansinhas

No arkansas um fogo subterrâneo
fez furor ao longo da estrada estatal

mais perto,
mas ainda assim tão longínquas
do querer,
se ergueram
cúpulas de canaviais.

São trombetas, as canas
da nossa costa:
anunciam,
rebentam por dentro
a própria alegria da novidade.
Onde outros abusam
das suas características flexíveis
para a contrução,
as canas da nossa costa
permanecem intactas,
inúteis instrumentos
de navegação que ora
dizem água,
costa,
estio,
maldade,
ora rebentam
-sem precisar de flautas
nem precedentes-
à passagem das prometidas.

Na borda da estrada estatal
um par de pés dança sem termostato
um improvável samba
com o calcanhar na batida fraca
da cadência.
Na batida fraca,
na batida fraca.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Ainda canto o índio


Não sei se era dia ou noite

quando comecei a beijar tudo cá dentro
beijei-me pai
beijei-me mãe
beijei-me filha
e unhas.
Beijei os ossinhos luminosos
e os que afiei escuros para desígnios
mal designados.
Beijei as tripas- estavam quentes
mas o consolo era genuíno.
Beijei a puta e a virgem na boca,
beijei-me homem, lobo, caralho
e à desprezada concedi o tempo
que passei aos pés da idolatrada
& vice versa.
Beijei tudo, tudinho
e cada lago era uma poça
cada pântano, saliva.
Mas quando beijei o meu carro
era beijo de ir embora
-entendo que o beijo tudo despede,
arranco-
e a canção, como a ilusão,
tem de acabar.

E que eu permaneça
me amando
enquanto esta terra sustentadora de árvores se estenda.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

À mesa de Adua


Disse o profeta daquele que canta, que dança, que, enfim, está morto.


Arcontemplação da gíria celeste

e Francisco brilhando escuro no escuro
do escudo
Um phalo phlorido de cujo deus a espada
é o ressentimento.

De uma a outra chaga,
perfeito é o eixo
perfeita
a infra estelar
costela
como uma flecha de paredes óptimas
desafiando o destino,
desfiando a trajectória.
Flecha no ponto negro vigiado:
Ciúme- era a garganta
Tacha no ponto certo
do azimute:
Pai- era de ouro.


A linguagem, filo mena
é o braço que vai de deus
às coisas mudas

E INIJI já só deseja a língua
nela calcifica o instante
todo
dos dentes
/
de todos os dentes.

sábado, 21 de maio de 2011

I.

Não saberia destrançar a canção do feitiço.


Eu sou a primeira,
aquilo que de mim é azul
fala de cobras azuis
está falando de certas azuis verdades,
e do meu caralho.
Digo:
Eu sou o primeiro,
Descendemos dos xamãs
Somos os filhos do povo jaguar
Somos os galhos da árvore jaguar
Somos os dentes da boca jaguar
O lugar de sangue
que cria a criança cria o demónio
O lugar de sangue
E ensinar é criar
Quando a última palavra se calar
Isto será o que eu penso
Isto será o que eu digo
Estou morto, morto, morta!
Estou morta
Mas voltarei em melhor forma
Ahhhhhh! Era isto que eu tinha para dizer! Ahhhhhh!

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Yasaí++

Curumim, O curumim
Porque cantas tão bem?
-Passo as tardes a chamar pelos meus irmãos
As noites, pelas minhas mães


Yasaí: do tupi-guarani quer dizer "fruta que chora".
Toda matéria prima para ser beneficiada precisa "chorar",
ou seja, cair das árvores para ser utilizada.

Pousai, peço, a atenção no índio, no índio que ao ritmo inalou e exalou esta explicação, dulcíssima orquestração no tear da pausa; no índio índico, índio indício claro, claro como um advento.


Curumim O curumim
Porque cantas tão bem?
-Assobiando o coração nunca se arrasta,
diz a mãe.

Curumim, O curumim,
Porque cantas tão bem?
-O assobio sopra o sopro,
pá.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Tradução da loucura em vésperas pascais

Mensagem 0890:
<< Um tiro de ferro foi visto a sair de um carro branco inconformado. >>
Estamos feitos, pensei, mas temos tempo
o nosso é um cadillac torrado.


Mas matar um homem dá direito a uma só coroa: a eternidade da sua cabeceira.
E de tanto me esvaíres, meu morto, te tornaste meu
pai, meu esposo, meu
filho.
A tua morte chega diariamente,
diariamente renovando o
susto, a tua hora
com cada dia chega a tua hora
.

Depois com a noite

cada passo meu é uma ruína
convocando
a inumerável horda de bárbaros
que a crosta terrestre aparca:
Romanos!
Cabeleiras loiras!
Anjos nocturnos!
Todos se levantam para a minha tortura.

Já não penso em Vós, Senhor. Já não penso em Vós.



Benedita Escala

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A EDIFICAÇÃO DA JANGADA DEPOIS DE JOSÉ LEZAMA LIMA CRESCER NO MAR

COMO AQUELE PÁSSARO PERSA, A JANGADA JORRA A PROA
NAS QUATRO DIRECÇÕES CARDEAIS
GOLPEADA POR UM GROTESCO EOLO
INEXAURÍVEL DERROTA -É A VITÓRIA?-
QUER DOBRAR A QUINA À CURVA

A PROA FABRICA UM ABISMO PARA
QUE O GRANDE VENTO LHE MORDA OS OSSOS
E CRESCEM OS OSSOS ABISMADOS
COM AS AREIAS QUENTES AS PEDRAS DO CORPO
DURANTE O SONO CRESCEM
E CRESCEM OS TOMATES COM O RELÓGIO CENTRAL

CRESCE NO AMOLE-CIMENTO A MADEIRA

El alción, el paje y el barco mastican su concéntrico.

GIRA A EMBARCAÇÃO EM DIRECÇÃO
A UM CENTRO DE SEDA
COM AS SUAS VELAS PRESUNÇOSAS
ATÉ SE ANCORAR NUM CÍRCULO
AZUL INALTERÁVEL
DE BORDAS AMARELAS
ATÉ SE ANCORAR NA QUADRICULADA LENTE
DE UM PRISMÁTICO

segunda-feira, 11 de abril de 2011

O Livro


Cascavel, ó cascavel
Porque tens os dentes tão brancos?
Passei a vida na selva deitada,
E tudo o que fiz foi morder


Magnífico objecto verde
Magníficas verdes polpas,
ao amor táctil magnificadas
Magnífico orgão verde,
agênsica língua.

E verde ainda o infinito
ésse:
Muskarat, O Muskarat

sábado, 9 de abril de 2011




Eu disse a história que imediatamente nos antecede é
a mais difícil de entender e tu disseste o distanciamento
é o que realmente conta para uma vida religiosa.




segunda-feira, 4 de abril de 2011

PAQUE À NEW YORK

Seigneur, la foule des pauvres pour qui vous fîtes
le Sacrifice
Est ici, parquée, tassée, comme du bétail, dans les hospices.

Desemboco intacta na coroa

desta corrida:
A cidade está cheia de
corredores mas por
todo o lado o desejo
de pontes e riachos
e aquela escala tão infantil,
abrem fendas nos meus sonhos,
confundem-me.
Mesmo a nova
ior
quer-se
bucólica. Sei-o quando no meu sonho
vejo toda a perfeição rural
continuamente -mas intacta-
perpassada pela turba de gente
empurrando.

Tudo isto para desaguar na cátedra
onde cada coluna inscreve a bronze
seus atributos e convoca
os respectivos discípulos
que alardem os louvores gravados
contra a frágil existência
do poema.
É a super-estrutura do engano, penso.
E logo depois acordo para uma
sala de convenções
e um corpo nu, disponível.
És tu, Eurídice,
ou sou eu?

Mas como despertar para a
oração matinal?
Em Nova Iorque não há sinos.



Benedita Escala

quinta-feira, 31 de março de 2011

I Heard It Through The Grapevine


Grandes pedaços de couro caem da diligência do mesmo jeito que cai a carne.

E talvez por tamanho excesso de matéria orgânica - carne, pele, esperma, pó,
deste bólide se excluem os cavalos
ou qualquer força motora animal
para além da vontade própria dos meus ante braços
e do eixo do corpo todo vertido na velocidade.

Derrapagens alucinantes! Nuvens de pó!
se pudessem cheirar o couro galgante
não gritariam tanto
os meus passageiros


Dezembro 2010

quarta-feira, 30 de março de 2011

DOVE VA QUESTO AGNELLO?

para a mão na África
Gritou a excisão da língua.

Ele, que é o manso, que não
levanta o braço para ferir
ferindo se proclama de outrem
Sou o cordeiro de Nana
Sou o cordeiro de Nana
Sou de Nana Nana Na
Grita a excisão cantante

Esse que apenas pede
um lance na complicação
de tudo o que não se cala.

E portanto fere, perscruta, dança a
dança da ordem impiedosa

-Rezai assim:

quarta-feira, 9 de março de 2011

Transpiração do arquétipo


Afecta na mulher /afecta na COBRA CORAL

terça-feira, 1 de março de 2011

अवे एक्सुद्र औ वू

EXUDRA O VOO DO PÁSSARO
QUE É SÓ UM E SÓ UM SE REPARTE
TODO
PELAS MIL ASAS DA MANHÃ
ANTHOS DISSE A AVE INVENTA O VOO
E ISTO É O PENSAMENTO A PENSAR-SE
CANTO ÀQUELE PÁSSARO QUE
DE ALGUMA FORMA
É TODOS OS PÁSSAROS

CANTO EXPLICO,
CANTO E A CARA DO ANJO
ESCANDE AO MESMO TEMPO
PELAS QUATRO परदेस
AS QUATRO
-CARDEAIS!-
DIRECÇÕES DO VENTO!

MENINA PRÓDIGA EM EMBLEMAS,
MENINA AZUL,
MENINA FARSA
COLANDO
CALANDO O AD ETERNUM EM
EM SÍMBOLOS;
VISÕES DE BANDOS;
ARCONTEMPLAÇÕES DA GÍRIA CELESTE;
ABÓDODAS ACUPLADAS ;
E MANIFESTAÇÕES DA CARNE DENTRO,
A PENETRADA.

CANTANDO SOMENTE
AO VENTO QUE PASSA

E OS RISOS, AS ORQUESTRAS, AS FLORESTAS
A FESTAS E O FOGO,
O QUE ARDE!
O QUE DE UMA VOLTA TUDO GALGA

E NO INCÊNDIO JÁ SEM PORTA
O ÍNDIO CABELUDO VOLTANDO-SE
E EM VEZ DA DESPEDIDA (ERA A MORTE)
DEIXA CAIR O MANTO:
POSSO AINDA LEVAR ALGUMAS AVES COMIGO,
ANDA, PÁSSARO.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

अवे एक्सुद्र ओ वू

Proa plural de benção que à passagem a mulher canta: Desnuda a culpa, chama ao vento, desnuda o vento, chama à cúpula. É a tangente, é a tangente. Cê ponto proa, ponto índio, ponto filo afilado na quilha fálica. Tudo isto a luz na água asperge.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A NAVE ESPACIAL

Lapidada foi, uma cabaça
até que do seu centro gravitacional
se destituiu a graça
e ela pôde, enfim,
flutuar.

E se a cabaça girou lenta no ar
e permitiu no espaço
o claro desenho da sua órbita,
o repolho, a couve, o abacaxi
giram em vórtices alucinados
insondáveis e impacientes.

Ó como são belos os frutos
com os seus corpos fractais tão propícios ao exagero.
Lapidados, voam como naves espaciais.
O mundo é extraterrestre.

sábado, 11 de dezembro de 2010

A Prática.

ābāhu puruṣākāraṁ śaṅkhacakrāsi dhāriṇam |
sahasra śirasaṁ śvetam praṇamāmi patañjalim ||

Tomando a forma de um homem até aos ombros,
segurando uma concha, um disco, e uma espada,
De mil cabeças brancas coroado,
A Patanjali, eu saúdo.

I.
Depois da chacina (crânios rachados ao meio)
os eleitos preparam o chão:
Delimitam o perímetro sagrado com minúsculas medalhas de lacre.
Aí dormirão, comerão, e se exercitarão
com as cabeças rentes àquelas medalhas
que delimitam o dojo-
então toda a sua vida uma missa e uma oração. Da prática.
então toda a vida -e por esta ordem- uma oração, um remédio, uma selva, uma vénia.

À mulher que sobrevive (misericórdia?),
espera-a outro perímetro,
o desdobramento interior correspondente à arena,
exíguo e exclusivo.
É a vénia às mil cabeças acima- o Canto.
E canta:
Patanjali me poupou,
escolheu-me para me ensinar.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

DE RERUM NATURA

A ARTE É A PRAXIS DO ESPANTO

FUNDIR ( A BRONZE ) UMA FOLHA (DE ÁRVORE) GROSSA.

OH, ESPERAR QUE SUA MEMBRANA AGUENTE O IMENSO METAL

O TEMPO SUFICIENTE

PARE SE TRANSFORMAR NELE

PARA SEMPRE

E PARA SEMPRE TAMBÉM

ELE (O METAL) PODER BROTAR

NATURAL

sábado, 13 de novembro de 2010

ordem para que o desenho desejo possa circular:

Triplos,
Quádruplos
Diamantes:

VIGIAI!

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A Paixão e a Prisão de SJC


Dentro do príncipe morava o rei e dentro deste o primeiro orava,

o que por um se conquistava o outro enaltecia,
e o que a um se abandonava o outro rejeitava.
A tudo isto um sopro acrescia,
Um nomeado, é certo,
mas cujo canto soprava onde queria.



quarta-feira, 3 de novembro de 2010

JOELHO

A PRÁCTICA
TRAZ-ME O IN
ÍCIO QUE O
FIM CO
SE:
REBENTÁDOR,
RASGÃOLIGANTE!
TEM DE SER ESTA
A ESTREITA
PASSAG
EM PAR
A O VÔ
O

A PRÁCTICA
TRAZ-ME O IN
ÍCIO QUE O
FIM CO
SE:
REBENTÁDOR,
RASGÃOLIGANTE!
TEM DE SER ESTA
A ESTREITA
PASSAG
EM PAR
A O VÔ
O

A PRÁCTICA
TRAZ-ME O IN
ÍCIO QUE O
FIM CO
SE:
REBENTÁDOR,
RASGÃOLIGANTE!
TEM DE SER ESTA
A ESTREITA
PASSAG
EM PAR
A O VÔ
O

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Francisco

o indigente (do ego) é o (arqueiro) certeiro.


terça-feira, 26 de outubro de 2010

Depois de Augusto,

come a flauta o poeta
alisa a tua seda saia sedenta
come a flauta o poeta
arranha os avessos do nome, prepara
o cabelo,
o alto nome,
as trinta cabeças entrançadas
em estacas juncos vivantes
bífidos assobios
come a flauta poeta:
aqui eu digo o meu agora

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O AMOR SÃO DOIS LEÕES ARRANHANDO A PELE DO AMOR E NÃO O CERNE DO AMOR

EXISTIRMOS, A QUE SERÁ QUE DESTINA?

Torquato e Livramento nasceram no mesmo dia mas o primeiro já está morto, morreu 10 anos antes mesmo de eu nascer e no entanto -como um outro poeta- eu continuo perplexada, cristalizada num copo de cajuína. Varada no âmbar do teu destino indestinado: Nenhumador.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Concentra-te!

Realmente, abandonado deste corpo esteve Deus todo este tempo.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Salvador, BA


Beware, he went on saying, of all kinds of anthropologists. They never are concerned nor mention in any way that
outer axis.
This he told me looking much like an icon, the palm of his hand outward, his legs folded before him. Crowning him, the dreadful accent of passengers. And just perhaps he might have married one, long before.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

MUITO AFINCO

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Vida índia


Uma aragem verde a principal prática periódica da lavra. Uma que sulca o próprio ventre, fibra, plasma, até à afinação do osso e sua total resplandescência. Uma pulição que não promete, só entrega e entrega e se entrega. Coroa uma espiral de entendimento a redenção que se desenrola num movimento ascendente, por dentro mesmo da fibra vegetal. Coroa o solo. Coroa o olho.
Uma selvajaria que é o próprio método, o próprio mergulho, o próprio desdém.

quinta-feira, 13 de maio de 2010


MULHER
QUE NÃO CANTA
ENTRETANTO
CANTÁ-LA-EMOS.


Fiama Hasse Pais Brandão

terça-feira, 4 de maio de 2010

Vamos ver.

A senhora afinca-se no ovo, como se este lhe pudesse trazer o voo que experimentara outrora. Perfura-o imperceptívelmente, faz escorrer nos sulcos todo o miolo; afina a casca em ossos miudinhos, filos luminosos; prepara qualquer coisa. Enganam-se todos os que a pensam saudosa - toda a alquimia por mais ensaiada prepara a espera. Ah, a senhora Clément está indo adiante, se está. Desembaraçada das coisas do mundo e dos jardins, H.C. pode finalmente abandonar-se à economia do excesso em que engendra os dias. Já sem falar das empresas esquemáticas que encetou e às quais se entrega, pulso e alma.

A construção de um jardim, quando finalmente se conseguiu o abandono sistemático de todas as clareiras de rosas da vida adulta é talvez um projecto caro, demasiado caro a um pequeno externo, pequenas mãos, pequeno crânio e respectivas clavículas. Mas um que permitirá os hibiscos.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

O Rei


O Rei é um

procrastinador
que adunca os prazos.

escorre os metros palmilhados com
a única precisão que um corpo encerra:
a esquelética.

Ao fundo o conselho reúne,
esmagam-se peónias rechonchudas
com o pé,
e veneráveis sábios moribundos
desejam no leito de morte conversas
corriqueiras e alheias, sobretudo.


-Para o lago, diz.

E nós estamos aqui para a vontade do Rei.


terça-feira, 20 de abril de 2010

УСПЕИИЕ ДОГОМАТЕРИ (II)


Do adormecimento muito se especulou (pelos séculos dos séculos); aquele carpir sem piedade nenhuma foi descrito com mãos que se quebraram ao arrimar-se ao leito e túnicas de ouro tecidas tornando impassivelmente ao fuso.
Mas quando a virgem finalmente adormeceu, eis o filho, o filho. E os beijos que dele tombaram.



Lisboa, Abril de 2010. Ainda a prática do coração, portanto.

УСПЕИИЕ ДОГОМАТЕРИ

The Dormition


Foi quando adormeceu enfim
a virgem (que teve filho),
que este lhe apareceu,
entronado.

E nos seus braços -hijo mío- vinha

em infantilizada escala,
a figura da mãe.

O que fez a virgem soltar
uma gargalhada
que apagou a vela

que mandara acender
para aquele leito.

O que por sua vez

fez do Filho tombar

aquilo que hoje mal sabemos

mas a que remotamente chamamos
de incessantes
beijos
cerrados.

Moscovo, Março de 2009

O ARPOADOR

queixa-se na beira mar que o o seu músculo estópico não resiste ao desfile branco.
Sem um se perfilam os outros, bravos como baleias. Nunca o meu amor foi tão bem tratado, suspira.
18 de Janeiro de 2010

quarta-feira, 7 de abril de 2010

ESTRELA DE NOVENTA PONTAS


QUANDO NO ESPAÇO
HÁ UM FRACTAL QUE BRILHA,
PRECEDE UMA ÍNTIMA E MORAL OBRIGAÇÃO
DE TRAÇAR QUALQUER CONSTELAÇÃO,
POR MAIS MINÚSCULA, QUE DESENHE.



quarta-feira, 24 de março de 2010



No meio da sala, como num ponto de pudor, estavam muito poucas pessoas. Talvez nenhuma, se se considerasse o ponto exacto.
- Por favor, escreva menos - pediu.





terça-feira, 9 de março de 2010

DIÁRIA

Tanto quanto a rocha é acéfala, nada o mar.
E assim como a proa fálica, o ovo
completa a rotação na terceira casa da diária
ascensão solar.

Este é o percurso que a escuridão da gruta opera na vista daquele que não vê.
O cego por quem a verdade
exagerou o seu cultivo.




LuxFrágil, 8 de Março de 2010

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Al revés

cercados, iridescemos

A construção da mesa (eucarística, claro está) acerca-se do cerco daquele comovido palácio (augusta propriedade de exílio de K., o incívil chefe de cerimónias) com a velocidade com que as flechas medievais se aproximam do seu directo destino: sem uma pestana. Uma iridescente cadência ascendente. Que galopa.
Primeiro, a estrutura servindo a gravidade; depois, o plano do tampo garantindo a perpendicularidade e com ela o mísero ensaio de uma eternidade que a podridão raia- tal como apodreceram os modelos das naturezas mortas, para lá da sua fixação a óleo; (Antes que borboleta bata as suas asquerosas asas duas vezes, já a mesa se ergueu, se põs, e se dispôs.) E nunca, durante a célere construção, qualquer coisa que possa, ainda que remotamente, guardar a lentidão síncopa do seu bailado posterior. Sim, por último nunca o olho de Deus.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

para tocar o outro lado da tua cara

Uma mudez tão inexorável quanto perfeita. A acrobática dança do desenraizamento* é um mortal no escuro de uma cabeça vegetal. E à limpa rigidez do eixo do olhar sucede uma infinda desmultiplicação prismada. Digo: é a vertigem. Depois a clareza desfeita e refeita por feixes de luz, depois o movimento imperceptível, absolutamente nulo mesmo, da respiração. Tentar o fôlego, o delírio, o mergulho arcolíríco e desfragmante, a mentira e, finalmente, o braço. Se estivesse em mim descreveria o mundo concreto em que toda esta acção se desenrolou. Há dias em que vale a pena arriscar a meticulosa descrição do desenho que o movimento de um certo braço (maciço) faz no espaço. Hoje não é um dia para explicações, hoje é um dia reservado à alegria. Em minúsculas doses, é certo. E com línguas bífidas.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

The slope - Now see to it.



Pude reparar que as inúmeras pinturas que pontuavam a sala eram de uma habilidade notável (todas proprietárias de uma laboriosa intenção de exceder o devido enquadramento) e que se tornavam mesmo no seu ponto de vida cardíaco- A casa exalando e exibindo os seus azuis. Além disso, a profusão com que brotavam as virtuosas pinturinhas dizia sem equívoco que a sua pequena autora fora, de facto, a indiscutível rainha da casa.
Em cada uma delas, uma assinatura surpreendentemente infantil de exasperada caligrafia minúscula faziam daquele o único nome. Foi como um amor irrecuperável.

O encontro com a profusa autora foi igualmente inesperado. Passo a relatar: Enquanto pilhava a divisão, caíram (de bruços mesmo) estes olhos sobre um par de óculos de massa vermelha que estavam pousados na mesa camilha. Imediatamente soube que eram os teus, que ali tinhas estado a ler. Soube, entre outras coisas, quem eras, a forma da tua cara, o teu papel naquela complicada família.

12 Janeiro 2009

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Azizi

Through the slush and the ruts of the roadway—
By the side of the dam of the stream;
Where the wet fishing nets are drying,
The carriage jogs on, and I muse.

Tolstoy
Pelo muro do casco antigo de Rabat,
carpindo uma cara sem riso,
vai um Judeu novo.
A pedra ecoa os passos
enquanto a barba
(negra) em capicua
apara as lágrimas.

E embora o homem chore
sem tristeza e deambule
o próprio caminho para casa,
são 1) a luz, difusa mas focal
e 2) o som, único, distinto, repercurtido,
quem abrem a boca
do espanto.

Um rapaz pequeno
de olhos pretos lamenta
a gaiola do seu pássaro azul
que lamenta a gaiola do seu menino
grande.

Como sei eu estas coisas,
como distingo, com quotidiana angústia
cada som, a própria barba
do Judeu?

Tudo isto aconteceu já,
Só não sei dizer quando.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A CABEÇA PRIMOGÉNITA


ANTÃO o meu primeiro. Antão de membros maciços, de canto estouvado, Antão.

Da tua cabeça saiu intacta e ininterrupta, toda a doutrina -oral, orada- que podemos, ainda que remotamente, vislumbrar dos anacoretas.
Do teu corpo compacto, a quietude divina destilando a hesychìa
te tornou inamovível, de fogo.

Agora pode ver-se que depois de ti se perfila -mais ou menos ordenadamente- a tremenda linhagem soberana.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Mas tem de haver mais.

Aceno para sete degraus acima, onde está minha mãe em meu lugar, onde está minha irmã doce habitando com olhos de tarântula o meu lugar, onde os filhos perfeitos de Deus cantam o seu grito lírico, ocupando o exacto tamanho (e dele tombando) da torre de um metro e setenta e um centímetros.
SOMOSOSFILHOSPERFEITOSDEDEUSCAÍMOSDOCÉUFEITOUMALUZSOMOSOSFILHOSPERFEITOSDEDEUSSOMOSOSFILHOSPERFEITOSDEDEUSSOMOSOSFILHOSPERFEITOSDEDEUS!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Hay que luchar pero sin perder la ternura jamás

Tento lembrar um dia que é um número. Tento lembrar a matéria de que sou feita, ao menos pela metade. Não tento ser tal matéria, mas que poder além da rejeição mesma do poder habita a impassibilidade? Mulher, homem: cabeça augusta do número, tento o braço maciço da palavra que derivou directa, intacta desde a hesychìa no deserto até aqui, onde ele talvez devesse irradiar ainda que secretamente, mas não irradia coisa nenhuma, há demasiada água para isso hoje.
Tento ainda, sobre tudo o resto, não perder a cadência que me trouxeste junto com a leviandade da mesma. O despudor do ritmo, bendita sejas. Do arranhão de 1,71 m não falarei, que embora tentasse, perdi na luta toda a nomenclatura para a oração.
E o ano que vem trará o retrato de um santo (híbrido), está dito.

O quadrado de R.V.

À Carolina bailarina

O quadrado (de luz) que RV inscreveu no espaço usando sem mesmo usar o calcanhar na batida forte, apagou uma certa noite escura da história do samba, no geral. Quebrando o tempo naquela ligeiríssima suspensão, apagou o peso inscrito no pé e rodou para além do próprio bailarino. Como se fosse alguém que, já morto, voltasse e se apresentasse aos vivos dançando daquela maneira, trazendo para a vida uma ligeireza a ela desconhecida, de tão fácil. Como a primeira leitura do poema.
Essa aparição física do ex-bailarino provocou em nós, os vivos, um espanto branco, inexorável mesmo. Porém a apresentação do bailarino, essa dádiva, é algo que, suspeito, continuará a ressoar pelos séculos dos séculos da ginga. E para a qual não temos outra paga senão a passista.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Moscovo, Holiday Inn

um punhado de amor
é um punhado de cinzas.

e com isto
o poema tardará.

como uma invocação formulaica,
perguntas como se pode resistir à tristeza
(que a alguém tornou belo)
quando é de manhã, tarde
na manhã,
e curiosamente é a este
insalubre quarto de hotel
que chega a obstinação primaveril.

como se a vida tardasse em chegar-te,
como (tarda) um jardim a estes baldios
de neve.

A prática do coração

A noite voltou a trazer-me palavras obscuras. Ao longe, alguém se vinga habitando o nome.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Algumas Chaves Para a Leitura do Poema Precedendo o Mesmo


Poeta (Identificação) - Aquele que se reconhece entre os outros pelas palmas das mãos. Vermelhas. E alguns nomes escritos nas costas.

Juízo- O preço que iremos pagar pelo desprezo que temos pelos alimentos que comemos.

Buraco- Não a passagem mas o túmulo- útero que esteve, sempre estará, à boca
daquelas mãos descritas anteriormente.

Água- um único curso a apontar: aquele que escorre.

Leite- o mesmo curso acima descrito.

A coroa- Aquilo a que os cristãos chamam cruz, antes de dizer escuridão.


*

És fogo,

Tua roupa é fogo:
Quais destes dois fogos eu posso suportar?



The Milk Spilling

-O matrimónio-

O (poeta) menino viu no barulho do mar viu na espessura do líquido viu cobrindo o seio direito da mulher um búzio que (anos) mais tarde ele colocou sobre o próprio peito e que mais tarde ainda coroou de leite. O agora homem parodiando, isto é, vivendo, de leite enche o búzio e por ele bebe até a barba escorrer os rios daquela água esbranquiçada.
Sabemos que casou -e que do matrimónio extraiu seus benefícios- porque em redor de uma garrafa grande de vidro azul estão, como num colar, pendurados dois búzios: o tal redondo e um segundo, mais pontiagudo.

domingo, 22 de novembro de 2009

Achados que não polemizam


As azeitonas

na marcação do território
estabelecem uma constelação (nada) orgânica;

O sol
na orientação das casas
levanta a lógica para a construção dos seus muros;

As arcas
frigoríficas agora desactivadas
estão nas hortas (que o Ribeiro Telles professou), cheias
de água da chuva e tornaram-se naquilo que gosto de chamar de:
máquinas de guardar o sangue;

O velho aforismo
que exalta as rãs
e exala os homens nús (da escultura);

Mais uma ou outra construção
que não vale a pena nomear,
apenas a ressalva de que os seus ornamentos
se pintarão sempre a vermelho;

A corola
de cinco pétalas
agora tem três.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Mas tem de haver mais

O sangue era todo dele: Foi assim que o poeta galgou um hiato de sete séculos ao baptizar o filho.
De facto, aproximou-se de tal forma a Andrei -sete séculos antes- que podemos com verdade afirmar que aqueles ícones perfeitos
um pintou e o outro revelou. Precisamente os mais austeros.

Arsenii, o poeta que tudo nomeou. Mas tem de haver mais, disse.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Tâmara Bébé.

À Joana,

Compelindo à vida sempre estiveram (mesmo que invertidas) as violentas imagens dessa doçura. Vulgo: as alamedas; e para lançar o corpo para diante, para o desejo, é que as palmeiras tem frondes. Gigantes, capazes, escadáis.
Ah mas para além da sua brava compleição, as palmeiras servem para invocar um espírito. Invocar, chamar um nome. E, per omnia, é para isso que têem nomes próprios, para que as chamem. E é por isso que as suas avenidas permitem emboscadas com flores (minúsculas) e a exuberância da botânica brotando em frutos do por vir.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Pôr a mesa com mãos de dedos minúsculos


Dormire rente
em altare rente.

A luz, os ícones, os achados. A sua
minúscula disposição feminina que ao
milagre
incita

Tudo deposto
para invocar
Enquanto nós,
na nossa horizontal 
posição,
tornamo-la pouco vulnerável:
habitamos o sono.

e tudo pode, subitamente,
pegar fogo, é igual.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O cú das abelhas

Havia na região um antigo convento em ruínas de cujas rachas na estrutura brotavam favos de mel, que escorria parede abaixo. Julgava-se que o outrora pio edifício servia agora de colónia a milhares de abelhas que ali faziam as suas colmeias, mas a verdade é que não se ouvia um zumbido que fosse.
Como a entrada do convento ruíra, prudentemente vedando o seu acesso, o facto nunca foi comprovado e, como seria de esperar, logo entre as virgens da região nasceu o estranho costume romeiro de, a cada primavera, ir-se lamber as paredes do exconvento.

Agora os factos:

Andou por lá uma menos casta, que apesar de laboriosa e cumpridora das tarefas do espírito summa cum laude, dizia nada poder contra a
naturalidade de Deus. Uma injustiça!
Quão desmedido rubedo despertava nas manhãs de Maio, ao imitar o vôo éptico e desenfreado -mas nada trémulo- sobre as flores!
A crescente exaltação que deixava florescer ao perseguir o cú das abelhas, depois toda ela traduzia no mel que escorria. Que sempre escorreu, suspeitamos.

HESICASMO

Quem dera que as noites voltassem a trazer palavras escuras e completamente independentes.
Agora os sonhos atormentam-me com uma luminosidade excessiva, parecida à dos talhos ou das epifanias de esquina; agora a tenebrosa ordem volta a atacar formulando clara e convexa o nome da práctica incessante da oração do coração.
Ah, suspiro, como eram doces e nada nocivas as noites que me traziam nomes tão escuros como longínquos: COELACANTO, admirável peixe-besta. Coisa perfeitamente extinta para o meu coração.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

SCENA I (Berlim)



Aquelas carpideiras envoltas
na poeira branca que tudo cobre.
A poeira branca que não é poeira,
nem é branca,
mas isso que se desprende à violenta morte de cada virgem
e que tudo cobre
como uma tristeza infinda
e que só pode ser classificada de
magnânima
poeira
branca
por não termos das palavras
a justa
medida
da desolação:

isso que é chorado
sobre uma erosão.

As carpideiras chorando a virgem chorariam a montanha.

SEREIO (negro)

Somos os filhos perfeitos de Deus!
Somos os filhosperfeitos de Deus!
Somososfilhosperfeitosde Deus!
som

osfilh
osperfei
tosde
deus!

domingo, 4 de outubro de 2009

Apenas a dedicatória,


Ao Joaquim porque é já o peixe negro que desde a antecâmara da vida (o desejo) soube abrir dois minúsculos olhos que me fixam atentamente.

E que me excedem.

-Filho, digo.