quinta-feira, 19 de julho de 2012

canción de la ingrata y volteo de la espinita


Pai, sinto falta da
rédea dura que o teu coração mole nunca arrepiou
áspera, sobre a minha penungem adolescente
essa serpente que lambe,
pata visível por pata (in)visível
os caminhos do transtorno, e trilha
os eixos da carícia desta pele morna, branda, lírica
É uma fonte tantas vezes dourada, que corre a nuca
 - uma veneziana-,
e se precipita em cascata
e se enremoínha no templo da cicatriz primordial-
o ponto equidistante entre o atlântico e o pacífico
a mata que fica no meio destas omoplatas
o ponto equidistante entre as omoplatas-
mata desmedida para as minhas costas
meu país horizontes fantasias
mas para a tua cabeça 
não.
acende e excende as costas
e depois prossegue
espessando em brandura hacía la curva
até se esconder afilada e sacral
E é ela que se espalha sobre os ombros 
como uma chuva dourada
consagra o busto ao brilho
Dulcíssima armadura que distingue
a bandeira/mortalha da indomabilidade da infância
e penteia de serpenteada seara cobrindo toda a super
fície da face, como disse Carlito Azevedo a super
autoestrada da crise mimética, como disse Girard
e espraia ao amor que a mim me anima o ventre, o baixo ventre,
e povoa enfim as províncias do aleitamento
circundando corolas, alinhando em espinha
as mil curvas colunares.
A branda armadura saca os dentes do cão preto da infância
quando lhe bate o sol e ela adensa em brilho como a mata delirante das nossas proibições e o tempo é só isto: dois
cães latindo
a cada extremo da abóboda celeste
assim me perco e me reencontro
assim um espelho e uma pega de caras
assim um guia do vai e vém da cabeça aos pés da deusa,
a penugem da adolescência, pai, passando, passando
abrandando


A rédea que é tanta vez motor inverso do amor morto, pai
da austeridade, do pó branco do recato, do abandono servil

Pai, um freio que chicoteasse atinçando esta babugem
que é já só da raiva o seu caroço negro

Pai, agora sou uma mulher
e sirvo à tua mesa minha melhor perda de rubro,
o vinho doce da nossa fermentação:
duas azeitonas pretas
certamente amargas mas a trituração
delas, pai, na tua recta boca é o alimento
sacia nossa constante fome de desordem, a raia do nosso amadurecimento,
nosso cogitar sossegado.


pink pink pink pink, pink moon

Fazenda, Junho 2012

quarta-feira, 11 de julho de 2012

TRANSATLÂNTICA



EU AGORA VOU BATER PARA TODOS OS MOUROS


 
desapagamento é escrita da puxa liga, poxa
meu nego, por onde tanto
andô esperança, pô nha
'rena, morena morena de ser a tal

alma do parece e perece a tristezura
o piano se esforça na distância
mas a natureza dela é a nossa
transatlântica


Canta só

sábado, 30 de junho de 2012

anda, vem ver o levante


o trino uterino sistema 
de ventos
que a maré lambe e lambendo esculpe
no contra-pêlo 
do ovo
acosta

sexta-feira, 22 de junho de 2012




encontrei o meu demónio: viçosa,
fumava um cigarro de olhos turvos
a infância





segunda-feira, 30 de abril de 2012

Chegou, sorriu, venceu

I AM WHAT I AM

por me acontecerem os cabelos dourados em certas horas
por acontecer a índia
porque a ideia de um continente flutuando
permite
um país
 lá há meninos, mangas, e acontecimentos dourados nos fios dos cabelos. são estrelas, senhor. passando, 
passando/ atravessando

(...)
V
manga
filho cabeludo
Reconcilia/
Liberta
Reconxavía/
Redonda

Responde:
o
fora
afora
aflora
em
ó

Lisboa, 14 de Janeiro 2012

domingo, 22 de abril de 2012

O OBJECTO DE FASCINAÇÃO E REPULSA DE AUBE ELLÉOUËT


 Reduz a um filete de leite sem fim
o jorro de um ventre de vidro

sábado, 14 de abril de 2012

RODAADOR

Tão doces tarântulas trazem os deuses por olhos.
-Joana dos Espíritos




Onde estão hoje as sete escravas de ouro que vendi

para sair do Luxemburgo, cadê vocês escravinhas?
Que isto agora é o Luxemburgo
e chovem partes de automóveis e locomoção urdidas pela pinga
chovem prantos sem botos nem resgate
chove muita coisa miudinha
os cafés-réplica destilam um desespero novo, que mal tem a novidade antes pelo contrário
mas a réplica repica o original e reina
a confusão do quereres onde antes a confirmação
do círculo
isto aqui agora é o Luxemburgo
míope, tão míope

Onde está o vosso brilho agora, meninas?
Durante todos esses anos (seis) falei pra mim mesma
o que importa é que estou aqui
fit as a fucking fiddle
deixei inocência no escuro da encosta do município
(ou será condado?)
mas o que importa é que regressei
com as minhas fa
com as minhas fa-fac
com as minhas fa fac-facu-ul
as f-fa-faculdades
intactas

isto aqui é o Luxemburgo e a luz inalterável do Luxemburgo
põe os cavalos na carroça do cortejo do país
Fúnebre, bem entendido.

Onde estão vocês, sete escravas da libertação?
A primeira derreteu na minha desobediência mansa
A segunda, confesso, foi na senda da incredulidade
do seu valor, fortuna a súbita desenvoltura
do poder mover-me, hidratar-me;
Foi a terceira que me traiu- por preguiça
As outras quatro o desespero ceifou de uma vez
e a mau preço, sabia-o, mas era
preciso
fugir

E se olho para trás
bom, é porque posso.
e é por raiva, para contemplar a ruína
se volto a cabeça para trás (e precipito, rosto e tudo
na putativa cristalização do sal)
faço-o piscando o calcificado olho a X., ordeiro soldado
refém de uma caligrafia deseperadamente contida.
Se agora vos invoco, sete irmãs, é para lembrar
-toda em sal-
que a que parece a única saída
muitas vezes é única saída.

Tinha uma outra, oitava.
era de prata/ ao pescoço
encerrava o maior entre os meus poderes- não era minha
Um vómito provocado mais um par de bichas mais a noite luxemburguesa ma
a-rran-ca-ram do pescoço. Essa noite inscreveu-me na lista
da vingança, da ira, da perversão
acabei
sendo o meu próprio ladrão mas não é essa a questão.
A questão é que o mundo conspira
A questão é que o mundo gira
Isso aqui agora é o Luxemburgo
& todos os filhos

Onde estão vocês, escravas?
hoje não vos libertaria
não assim:

Oitava
tua eterna dona
está sentada no muro
Tem as meias rotas
mas olha com duas incorruptíveis tarântulas por olhos
o futuro

sexta-feira, 13 de abril de 2012

prece de um pé ao outro


Um dos meus pés chorou
Junto à sarja
molhado, distraído

E se um é chora
como fazer do outro coto
o boto
o translúcido
que não se agita
que rosa obedece e branco acredita
nessa senda de lama/ toda cama

Meu boto só mais um nada de equilíbrio
sem lenço/ sem documento
leva este carpintado desalado em tua boca
Boto, amigo, cavalgas/ não nadas

quarta-feira, 11 de abril de 2012

VAI PASSÁ O BOI

Tenho que pegá
viagem de gerir a fome também purifica o adro

pra que procissão prossiga/ progresse, evolutiva
também purifica o fogo do corpo
pra que quando passar
ela me inclua

viagem de gerir a fome/ esse fluxo cavalgado
abre alvos em cada esquina
luxo é tudo ser destino
e rejubila de alegria a paragem digestiva-
a felicidade é celular
-peguei!


domingo, 18 de março de 2012

AVA


as rosáceas do leopardo

não encerram nenhum ponto,
as do jaguar
sim

camuflada de matriz
celular
camuflada de novo modelo
para o universo,
pisa lenta impassível
a pata do não ornado



terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O ELEU

é um sim/não
sem vez
o eleu parece, desaparece. alma do parece, desparece! perece
deste
sim/não que é senão
aqui.
a alegre
a alegre transmutação do mato
a alegre transmutação da mata
o eleu, de manhã ele de noite eu.

ambos
tropeçam do desembaraço deste ver e desaparecer de ser visto

domingo, 4 de dezembro de 2011

El Tigre

São os velhos homens humanos passando, passando, atravessando.

Atenta al tigre de la puerta.
El tigre de Borges es ese, el que todos los dias hay que cruzar para salir a la calle.
Para la charcutería y el sol hay que romper al Tigre.
Para comer hay que romper al Tigre.
Para bañarse hay que cruzarlo.
Para cuidar a su jardin hay que cruzarlo.
Que significa esto Cruzar Un Tigre?
Si salir a la calle es penetrar su entraña, que nueva orden mundial se empaña?
Que nuevo mundo empieza a dibujarse:
calles-vísceras, montañas de ocio,
cielos esplendido hueso
ríos-sospecha, corage
dobla del todo.
Hay que desazerlo para seguir
y hay que hacerlo (con los ojitos) pa volver
Volver- hacerse a su placer,
hacerse tragar de nuevo al entrar
y una vez dentro
del tigre dormir,
huír, escribir.

- Este es el Tigre de Borges, pero hay otro
ronda
y no se ve.



Lisboa, Noviembre del 2011

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Canto XV

iniki

Sou o primeiro
sou mesmo como
o açaí-demónio
acima das nuvens
rasgando o céu
assim é como sempre foi
A forma do guardião-demónio:
as folhas da árvore-demónio
essas folhas contorcem-se
lembram um enxame de pássaros-demónio
inúmeros, estão se movendo
são o mesmo
Estou mesmo cantando
enquanto do canto
do lábio escorre
sumo de tabaco
Ahhhhhh! digo! Ahhhhhhh!
Sou o primeiro
que traz ao peito
sangue de folha fresca
adornado com imagens
o losangulo-demónio
a geometria é a matriz
pela geometria aprendi
As imagens no meu peito
controlam os demónios:
sou mesmo o primeiro
sou o demónio dos demónios.


Canção Marubo passada, vertida, escorrida para o português.

sábado, 29 de outubro de 2011

São Paulo segundo a cabeceira de Flannery O'Connor (para Anthos)


ATÉ AGORA
SOMOS O ESTERCO
ABSOLUTO
DO MUNDO


sexta-feira, 14 de outubro de 2011

descido está o anjo erradica a dor (para a Matilde)


A ALEGRIA É A PROVA DOS NOVE (OSWALD)


aparecida apareceu
(de cara pintada de amarelo porque naqueles dias só sabia pensar em jaguares)
e esta,
infelizmente
nunca soube atempadamente
que ela
era eu


E A PROA DOS NOVENTA


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

DO OBJECTO "SIM"



Quando desceu enfim

de si,
e dos olhos
das mãos
da cara de luz
Eu reconheci o meu irmão
Tinha um boi adornado na testa
escandido para a festa
Era um boi adornado para a festa
com um cd na testa
e do brilho
reflector
nasceu Esplendor:
brilhava, brilhava:
acontecia muito brilhante
tão multiplicante!
e a cara do anjo
nas quatro cardeais!

Bambu rasante
na garganta
a janta
a estrela toda a volta
de narciso em riste
é o anti-afogamento
o anti-afogamento!

Era a face oculta
do querer
Era, foi, será
a óbvia seta tesa
zerando a reza
dos campos
dos mantos
dos prantos
dos sem-raíz

E dos braços adornados
que a trança em cobre
a transa encobre
manda ordena: avançe a dança!
vibra
sempre alegre o rio e teso o fio
do arco da conversa

Vejam pois, infindas
as graças de meu irmão
que antes do leite
é deleite argonado pousado
em pleno templo-
dançura marquidão
doçura negridão

Vem
coagula e paralisa o jogo
sua mão,
depois dos pássaros ele chega
e instala seu profético multicolor
Ousado no coração azul
desvenda irmão
o pleno corpo
avançado

Se espalham
e gritam os átomos
do teu canto:
Ahhhhhhhhh!


É a face alegre, alegre
equidistante

É a face alegre, alegre
equidistante

REFULGE
REFULGE
RESPLANDECE



(VIRÁ QUE EU VI!)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A senhora H.C. explica como atravessou os delírios da atenção extrema

Patiently, patiently and persistently

Pentear-se
com o pente da loucura ou

pentear-se com o do fogo- c'est pareil
desde que se mantenha a escrupulosa
passagem dos fios
-a maior contagem do amor-
se fará da cabeça
a mesma coroa
de luz


quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Potawatomi Princess



Eis que da fracção bêbada nos chega
empinada num bólide rural -pink carnation & pick-up truck
eleita, a princesa do ano

Invariável rosa cárie, monstro
por dentro que coroa de plástico
os plásticos.
Agora que penso nisso não sei se
ela é a soberana ou pura perversão
do que a rodeia e nunca será parte
integrante
embora gerações de pardos tarados
não tenham feito senão a contínua
injecção de xarope de mapple
no cu laranja

E tem uma maquilhagem muito diferente
(sua exclusiva magia é a da escalada
social e a do enredo,
não se pintam mais encarando o medo)

A princesa traz a faixa e o histerismo que nunca herdou
Mas da segunda cadeira de plástico
acena também o avô

sábado, 10 de setembro de 2011

Já nasceu.


AR CORADO encontra-se nas franjas
da celebração
INIJI: juntaram-se as águas.


segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Equânimo café da manhã


Que faríamos nós de nossa vida tão pura?

C.L.
Adoro muesli pela manhã.
Como explicar a inesperada
alegria do coco?
doçura tão súbita que atravessa
toda a dormência da língua & etc.

Detesto a aparição do verme
na fruta de cada dia.
Irrompe feroz o anúncio da podridão
Ri e ri e rindo sacode
toda a dormência da superfície.

Agradeço estas duas surpresas
& a diferença entre elas