quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Azizi

Through the slush and the ruts of the roadway—
By the side of the dam of the stream;
Where the wet fishing nets are drying,
The carriage jogs on, and I muse.

Tolstoy
Pelo muro do casco antigo de Rabat,
carpindo uma cara sem riso,
vai um Judeu novo.
A pedra ecoa os passos
enquanto a barba
(negra) em capicua
apara as lágrimas.

E embora o homem chore
sem tristeza e deambule
o próprio caminho para casa,
são 1) a luz, difusa mas focal
e 2) o som, único, distinto, repercurtido,
quem abrem a boca
do espanto.

Um rapaz pequeno
de olhos pretos lamenta
a gaiola do seu pássaro azul
que lamenta a gaiola do seu menino
grande.

Como sei eu estas coisas,
como distingo, com quotidiana angústia
cada som, a própria barba
do Judeu?

Tudo isto aconteceu já,
Só não sei dizer quando.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A CABEÇA PRIMOGÉNITA


ANTÃO o meu primeiro. Antão de membros maciços, de canto estouvado, Antão.

Da tua cabeça saiu intacta e ininterrupta, toda a doutrina -oral, orada- que podemos, ainda que remotamente, vislumbrar dos anacoretas.
Do teu corpo compacto, a quietude divina destilando a hesychìa
te tornou inamovível, de fogo.

Agora pode ver-se que depois de ti se perfila -mais ou menos ordenadamente- a tremenda linhagem soberana.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Mas tem de haver mais.

Aceno para sete degraus acima, onde está minha mãe em meu lugar, onde está minha irmã doce habitando com olhos de tarântula o meu lugar, onde os filhos perfeitos de Deus cantam o seu grito lírico, ocupando o exacto tamanho (e dele tombando) da torre de um metro e setenta e um centímetros.
SOMOSOSFILHOSPERFEITOSDEDEUSCAÍMOSDOCÉUFEITOUMALUZSOMOSOSFILHOSPERFEITOSDEDEUSSOMOSOSFILHOSPERFEITOSDEDEUSSOMOSOSFILHOSPERFEITOSDEDEUS!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Hay que luchar pero sin perder la ternura jamás

Tento lembrar um dia que é um número. Tento lembrar a matéria de que sou feita, ao menos pela metade. Não tento ser tal matéria, mas que poder além da rejeição mesma do poder habita a impassibilidade? Mulher, homem: cabeça augusta do número, tento o braço maciço da palavra que derivou directa, intacta desde a hesychìa no deserto até aqui, onde ele talvez devesse irradiar ainda que secretamente, mas não irradia coisa nenhuma, há demasiada água para isso hoje.
Tento ainda, sobre tudo o resto, não perder a cadência que me trouxeste junto com a leviandade da mesma. O despudor do ritmo, bendita sejas. Do arranhão de 1,71 m não falarei, que embora tentasse, perdi na luta toda a nomenclatura para a oração.
E o ano que vem trará o retrato de um santo (híbrido), está dito.

O quadrado de R.V.

À Carolina bailarina

O quadrado (de luz) que RV inscreveu no espaço usando sem mesmo usar o calcanhar na batida forte, apagou uma certa noite escura da história do samba, no geral. Quebrando o tempo naquela ligeiríssima suspensão, apagou o peso inscrito no pé e rodou para além do próprio bailarino. Como se fosse alguém que, já morto, voltasse e se apresentasse aos vivos dançando daquela maneira, trazendo para a vida uma ligeireza a ela desconhecida, de tão fácil. Como a primeira leitura do poema.
Essa aparição física do ex-bailarino provocou em nós, os vivos, um espanto branco, inexorável mesmo. Porém a apresentação do bailarino, essa dádiva, é algo que, suspeito, continuará a ressoar pelos séculos dos séculos da ginga. E para a qual não temos outra paga senão a passista.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Moscovo, Holiday Inn

um punhado de amor
é um punhado de cinzas.

e com isto
o poema tardará.

como uma invocação formulaica,
perguntas como se pode resistir à tristeza
(que a alguém tornou belo)
quando é de manhã, tarde
na manhã,
e curiosamente é a este
insalubre quarto de hotel
que chega a obstinação primaveril.

como se a vida tardasse em chegar-te,
como (tarda) um jardim a estes baldios
de neve.

A prática do coração

A noite voltou a trazer-me palavras obscuras. Ao longe, alguém se vinga habitando o nome.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Algumas Chaves Para a Leitura do Poema Precedendo o Mesmo


Poeta (Identificação) - Aquele que se reconhece entre os outros pelas palmas das mãos. Vermelhas. E alguns nomes escritos nas costas.

Juízo- O preço que iremos pagar pelo desprezo que temos pelos alimentos que comemos.

Buraco- Não a passagem mas o túmulo- útero que esteve, sempre estará, à boca
daquelas mãos descritas anteriormente.

Água- um único curso a apontar: aquele que escorre.

Leite- o mesmo curso acima descrito.

A coroa- Aquilo a que os cristãos chamam cruz, antes de dizer escuridão.


*

És fogo,

Tua roupa é fogo:
Quais destes dois fogos eu posso suportar?



The Milk Spilling

-O matrimónio-

O (poeta) menino viu no barulho do mar viu na espessura do líquido viu cobrindo o seio direito da mulher um búzio que (anos) mais tarde ele colocou sobre o próprio peito e que mais tarde ainda coroou de leite. O agora homem parodiando, isto é, vivendo, de leite enche o búzio e por ele bebe até a barba escorrer os rios daquela água esbranquiçada.
Sabemos que casou -e que do matrimónio extraiu seus benefícios- porque em redor de uma garrafa grande de vidro azul estão, como num colar, pendurados dois búzios: o tal redondo e um segundo, mais pontiagudo.

domingo, 22 de novembro de 2009

Achados que não polemizam


As azeitonas

na marcação do território
estabelecem uma constelação (nada) orgânica;

O sol
na orientação das casas
levanta a lógica para a construção dos seus muros;

As arcas
frigoríficas agora desactivadas
estão nas hortas (que o Ribeiro Telles professou), cheias
de água da chuva e tornaram-se naquilo que gosto de chamar de:
máquinas de guardar o sangue;

O velho aforismo
que exalta as rãs
e exala os homens nús (da escultura);

Mais uma ou outra construção
que não vale a pena nomear,
apenas a ressalva de que os seus ornamentos
se pintarão sempre a vermelho;

A corola
de cinco pétalas
agora tem três.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Mas tem de haver mais

O sangue era todo dele: Foi assim que o poeta galgou um hiato de sete séculos ao baptizar o filho.
De facto, aproximou-se de tal forma a Andrei -sete séculos antes- que podemos com verdade afirmar que aqueles ícones perfeitos
um pintou e o outro revelou. Precisamente os mais austeros.

Arsenii, o poeta que tudo nomeou. Mas tem de haver mais, disse.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Tâmara Bébé.

À Joana,

Compelindo à vida sempre estiveram (mesmo que invertidas) as violentas imagens dessa doçura. Vulgo: as alamedas; e para lançar o corpo para diante, para o desejo, é que as palmeiras tem frondes. Gigantes, capazes, escadáis.
Ah mas para além da sua brava compleição, as palmeiras servem para invocar um espírito. Invocar, chamar um nome. E, per omnia, é para isso que têem nomes próprios, para que as chamem. E é por isso que as suas avenidas permitem emboscadas com flores (minúsculas) e a exuberância da botânica brotando em frutos do por vir.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Pôr a mesa com mãos de dedos minúsculos


Dormire rente
em altare rente.

A luz, os ícones, os achados. A sua
minúscula disposição feminina que ao
milagre
incita

Tudo deposto
para invocar
Enquanto nós,
na nossa horizontal 
posição,
tornamo-la pouco vulnerável:
habitamos o sono.

e tudo pode, subitamente,
pegar fogo, é igual.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O cú das abelhas

Havia na região um antigo convento em ruínas de cujas rachas na estrutura brotavam favos de mel, que escorria parede abaixo. Julgava-se que o outrora pio edifício servia agora de colónia a milhares de abelhas que ali faziam as suas colmeias, mas a verdade é que não se ouvia um zumbido que fosse.
Como a entrada do convento ruíra, prudentemente vedando o seu acesso, o facto nunca foi comprovado e, como seria de esperar, logo entre as virgens da região nasceu o estranho costume romeiro de, a cada primavera, ir-se lamber as paredes do exconvento.

Agora os factos:

Andou por lá uma menos casta, que apesar de laboriosa e cumpridora das tarefas do espírito summa cum laude, dizia nada poder contra a
naturalidade de Deus. Uma injustiça!
Quão desmedido rubedo despertava nas manhãs de Maio, ao imitar o vôo éptico e desenfreado -mas nada trémulo- sobre as flores!
A crescente exaltação que deixava florescer ao perseguir o cú das abelhas, depois toda ela traduzia no mel que escorria. Que sempre escorreu, suspeitamos.

HESICASMO

Quem dera que as noites voltassem a trazer palavras escuras e completamente independentes.
Agora os sonhos atormentam-me com uma luminosidade excessiva, parecida à dos talhos ou das epifanias de esquina; agora a tenebrosa ordem volta a atacar formulando clara e convexa o nome da práctica incessante da oração do coração.
Ah, suspiro, como eram doces e nada nocivas as noites que me traziam nomes tão escuros como longínquos: COELACANTO, admirável peixe-besta. Coisa perfeitamente extinta para o meu coração.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

SCENA I (Berlim)



Aquelas carpideiras envoltas
na poeira branca que tudo cobre.
A poeira branca que não é poeira,
nem é branca,
mas isso que se desprende à violenta morte de cada virgem
e que tudo cobre
como uma tristeza infinda
e que só pode ser classificada de
magnânima
poeira
branca
por não termos das palavras
a justa
medida
da desolação:

isso que é chorado
sobre uma erosão.

As carpideiras chorando a virgem chorariam a montanha.

SEREIO (negro)

Somos os filhos perfeitos de Deus!
Somos os filhosperfeitos de Deus!
Somososfilhosperfeitosde Deus!
som

osfilh
osperfei
tosde
deus!

domingo, 4 de outubro de 2009

Apenas a dedicatória,


Ao Joaquim porque é já o peixe negro que desde a antecâmara da vida (o desejo) soube abrir dois minúsculos olhos que me fixam atentamente.

E que me excedem.

-Filho, digo.

sábado, 26 de setembro de 2009

Há trinta mil anos

aquelas mãos encontradas nas grutas do atlântico-sul- por vezes pretas, azuis e nunca vermelhas- são a cabeça primogénita do grito daquele
que exala
e exala ainda:

Eu sou aquele que ch-ama porque tu és nomeável,
ó virgem de quarenta cabeças, de outras trinta coroada!

Canto para pilhar os teus juncos entrançados,

a tua cabeça
alta
toda à escuta.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009


RODA A DOR NA RODA DE CHORO

domingo, 20 de setembro de 2009

"SEREIO"


Homens tão inamovíveis que são de fogo!
Homens tão inamovíveis que são de fogo!

Nova Novo Brando Som - Artéia a última palavra de milhares de peixes negros esdita.

Para o António

Rinpoche M. não era na verdade a Madre. (por quem se corre). Apenas - e foi ela que assim o disse -um dia leu. Isso mesmo: um dia levantou. Teve coragem e abriu o canto assim, súbitamente.
Naquele
tempo deserto, Rimpoche M. disse um poema como uma oração - Não pelo facto de toda a poesia ser passível de ser rezada porque mantém a única coisa que realmente conta numa vida religiosa (o distanciamento), mas antes como se indistinta, uma proa fálica aflorasse à tona desse pântano. A voz no deserto. O sopro. O bardo. Vernunft. Alguém Cantando. 
Rinpoche M. disse-o e o poema surgiu único, messiânico mesmo. Então todos cantaram e muitos, cantando, rezaram; alguns penetraram mesmo a sua demanda; alguém, alguém entendeu seu coração e dessa cadência (e da outra que não sei dizer assim de um modo explícito) nasceu um mantra que aplacou aquela instigante e mortal-doce ordem de Paulo: Rezai incessantemente.
Portanto não era Rinpoche M. a cabeça do poema, embora fosse o pulso que o pôde escrever porque à noite um homem é também a hipótese de fecundação. E é
ele, o poeta, que inspira e exala a 0.01 peixes negros por segundo o sémen que refulga, e refulge de uma só volta como a uma caverna o mar; e entrando-o ela volta a sair, fecunda, prenhe daquelas milhares de cabecinhas que depois esmagaria para poder escrever a tinta. 
No meio da folha, intacta, a única palavra do poema. ARTÉMIA. ARTEIA.

24 de Agosto de 2009

sábado, 12 de setembro de 2009

EFRAÍN,


chamei-te mas
tinhas partido já
cheio do espirito

e eu que ficasse cheia
da tua espada de carne.

terça-feira, 1 de setembro de 2009



SETEMBRO



sábado, 8 de agosto de 2009

um céu intracardíaco, literalmente.



O trabalho do atleta é penetrar o seu músculo.


terça-feira, 21 de julho de 2009

Vem (Não vem)


Um corpo que nada se rala em estreitar os gestos à brandura do ridículo, antes descansa. Como descansam os homens desesperadamente sós.
Por exemplo aqueles que à força de circunstâncias que desconheço, se achavam num determinado sítio insular, e que estando desprovidos da consciência do seu desespero, nem o corpo que tinham conheciam bem: Não houve um só capaz de construir uma embarcação.
Esses homens a que, ainda assim, aquela obscura força impelia ao chamamento: pelas tarde eles se entregavam todos no gesto (ridículo, sabiam-no) de chamar; de, imagine-se, soprar num búzio.

Lógica para a construção do murete II

La vie ne trouve sa grandeur que dans l'extase et l'amour extatique.
O homem escapa à sua cabeça como um condenado escapa à prisão.

Encontrou no fundo de si não Deus, que é a proibição do crime, mas um ser que ignora a proibição. Ao fundo daquilo que sou, encontro um ser que me faz rir porque é sem cabeça, que me extraí à angústia porque ele mesmo é feito de inocência e de crime: tem na mão esquerda uma arma de ferro, e na direita chamas que se assemelham a um sagrado-coração. Ele reuniu na mesma erupção o Nascimento e a Morte. Ele não é um homem. Muito menos um deus. Ele não é eu, mas é-o mais do que eu  próprio: O seu ventre é o dédalo no qual ele se extravia de si mesmo, e eu com ele. E no qual me encontro tornando-me ele. Isto é (, o) monstro.  



A. pousa a enxada para fazer o segundo sangramento do dia: me embrujaste, me embrujaste.



notas para a construção,


a largueza do gesto (e a mecanização dessa extensão);
a necessidade de descanso (da cabeça no corpo);
a garantia da repetição;
a automatização da intenção;
o reconhecimento (qualquer um serve);

Ritual- A marcação antiga do ritmo que já não nos pertence, a estreiteza com a terra.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Détachement

Depois foi a derrocada da casa, cumprindo assim uma a uma, suas leis. Mas não entendi, a rapariguinha de cabelos de cinza fez questão de habitar os escombros com uma singeleza que jamais usara em vida.
Escombros escandindo, guardando da pedra a dureza que a torna pedra mas agora nela deitar-se para dormir ou assim; Agora da pilha de entulho um ombro nu aflora como uma ilha independente; Uno se vuelve tan fuerte que pa nada le hace falta el mundo.

segunda-feira, 22 de junho de 2009



PARA QUE ESTE MUNDO NÃO ACABE


segunda-feira, 15 de junho de 2009

Gumbo

Naqueles dias nada era mais importante que os solitários passeios a que o homem se entregava (a obrigação era diária apesar da duração da excursão ser, quase sempre, variável), e dos quais não soubemos nunca nada- apenas 1) a velatura que trazia nos olhos e 2) que o trajecto sempre ia pela água, além da faixa de palmas bravas. Nada, nem os homens agrilhoados, nem a água lambendo a terra, nem a sua história nem a nossa, nada sobre nós era tão importante como aqueles passeios desesperados; os lugares que visitaria, as coisas que não veria, imerso que estava no transe de deambular e dois quais, de qualquer forma, nada saberíamos.
Tudo isto testemunhámos porque uma mulher permaneceu no alpendre. Não esperando o regresso do homem. Simplesmente ali se encontrava, mirando em frente. Talvez curando alguma dor, talvez entregue ao ocioso vazio que depois dela vem, só ali. Olhando em frente, cheirando a comida mas olhando em frente.
Então o homem chamado Gabriel aparecia. E desaparecia, lá para dentro.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Na noite que a serra escande

já só sei dizer nomes próprios. Soletrar. Cantar que os meus estão na rua e ficar-lhes com as pernas maciças. Antão Tomé Joana João. Isto é rezar.



segunda-feira, 8 de junho de 2009

Palmeiras com nomes próprios

 

Uma grave e arguta elucidação em alemão para as massas salvou meu desenho a carvão- explicou-me, quebra por quebra, as tensões circulares a que se ofereceria, antes de tudo, antes do olho. Assim, desde última fila no topo da colina até à boca da ópera (era uma montanha) deixei que ele se fizesse e me entreguei no esforço de acompanhar aquilo que já por si desbravaria (é uma canseira a vocação).


Regressei de trabalho feito para uma montanha vazia, um irmão já crescido, os amigos perdidos.


Louco o homem que trabalhou, que se afincou numa lavra e nessa distância sulcou bem fundo um trabalho, uma obsessão. E agora de trabalho feito, a vida cava no corpo (nas mãos) uma ressaca e o nosso louco declina a sua companhia natural, essa doença, e sai para a costa. Digamos: é a festa do estio.

E se ele raivoso procura desenfreadamente colina acima, colina abaixo, desfazer-se com as marés; beber em quantidades idênticas ao que pensa ser a piscina do mar; correr pelo meio dos cardos, picar-se; deixar, e arrepender-se de ter deixado, o livro à guarda de um carcereiro alimentador de ratas do tamanho de pequenos leõezinhos (que vêm comer à mão dela, que é a prisioneira-mor), é porque chegada a noite ou lá o que é, se deita para dormir e sonha, sonha muito. Que consigo descem pelas encostas todos os queridos, e que ao subir encontra, já sem surpresa, os desaparecidos.


Minha mãe eu

corro.


quinta-feira, 4 de junho de 2009

The slope II

Com que dentes arranhar um novo amor? A pergunta é sempre a mesma, e Maria Teresa maldiz um certo, certeiríssimo amante que do corpo lhe arrancou a luz à bombilhada.

Eu penso nela. O corredor não pensa em nada. Lá dentro um homem -novo- perde a cara, a juventude e quiçá a parca vida.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

"TATU"

É uma casa colonial escabrosamente alçada em dois pisos. A fachada picada e caiada não acusa nenhuma orientação solar (talvez esteja virada a Este), mas antes volta toda a casa no movimento que acompanha um inesperado percurso vulcânico, uma coisa assim muito insular. Dir-se-ia que espera naturalmente uma erupção. Ao olhá-la de cá parece-me compreender o seu projecto e calo creio que obscuramente entendo a tua vontade secreta de uma imobilidade indiferente, para abolir o tempo. Para o esperar. Sem paciência.
Portanto num painel de azulejos mandei inscrever a misteriosa legenda. Agora, como a um medalhão, dedico-me a olvidar o resto e a habitar somente essa legenda com a estranheza da deslocação. Admito que exista, sim, a intenção de um lento cultivo para o delicado desconforto do lar. E talvez com o fim do Verão ele chegue assim, como uma jóia- a ostentação de um quase constante desfasamento.

Faço tudo o que posso para permitir ao longe o restolhar das folhas das palmeiras, umas contra as outras. Quero dizer, faço tudo o que posso para permitir a fúria imobilidade da loucura. E não me referir jamais ao mar.

Agora para dentro. Devagar, depressa e devagar.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

precinha (na orla mmarítima)



E que Deus nunca me dê a graça
da coisa performativa.

Antes lajes maciças
rodopiando e atravessando (os céus);
E pedra-pommes apetecíveis
abrasando os dentes.

Mas se der, que deia.
E seja feita a Sua vontade

história da caçadora de pérolas e o mergulhador de apneia:






Os dois vencemos um
bicho chamado
CANÇÃO

Portanto entre nós (será)
a dança






Maladresses pour s'evader du lit (La femme qui tombe)

Oh estupor... - e começou a rir; era um riso duro e não alto, como vomitar e tossir - Aí está. É isso. Como jogar aos dados. Sai o sete. Sai o onze. Talvez que, se eu for capaz de repetir isto... - Ele (o médico) bem os ouvia (...) a mulher ainda a rir, não alto, com o abstracto e furioso desespero que lhe vira antes nos olhos.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Atelier

Da poeira que cobria o imenso estercal (mesmo as ferramentas encostadas, largadas para ali), nada a referir desse abandono homogéneo. No entanto, e principalmente aos cantos, haviam: uma mosca de pernas para o ar; uma traça putrefacta; uma casca de ovo (amarela, retesada, cristalizada na expulsão); um pêro podre; e o cinzeiro (na vez das larvas).
- Quanto mais espero, mais se amontoam as pequenas mortes.

E saiu, esfregando as mãos na alegria da construção.

VASCO, CANÇÃO

As nossas vítimas são
a nossa melhor parte,
Eurídice, crescem depois
de mortas
e ocupam-nos como bússolas ou
rosa-dos-ventos.


Quem teve o privilégio, Eurídice? Foste tu ou
fui eu?

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Expulsão: Cena primitiva do desvelo. Acto I

os mortos estão vivos para os vivos e os vivos mortos para os mortos

Só há duas idades na vida: antes e depois da morte da mãe.
(Todas as outras divisões etárias são sociáveis ou falsas.)

Não choro por tu estares morta mas porque eu, enquanto viver, estarei morta para ti.

Doravante, calarei para dizer, como Hölderlin, Sou «a criança dos cabelos de cinza». A que intenta habitar o intervalo entre as duas idades. O Artista. Aquele que aceita - e não aceita- a morte imemorial da mãe.

Vivo. Isto é, ouvir-te ainda dizer: depois de mim, vivei antes de mim.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Terna É a Noite do 13 de Maio

Fiz-lhe prometer: Não trabalhar nunca na ferida. E se por uma distracção, tal falha de santidade sucede, que eu morra como o peixe. Par la bouche de ma blessure. Que assim é da maneira que nem a boca do espanto cessa, nem o lado deixa de escorrer. Não trabalhar nunca na ferida mas se assim for, não trabalhar nunca a ferida. Para que ela jorre.
Para que eu de alguém possa tirar o molde em cera dos seu orgãos todos, os internos, e depois os deitar à grande labareda da noite que é o ritual pagão do santuário que só nos ascende a naúsea e a interior gargalhada do fogo- Não é bem uma queimada isto, não trará plantas novas com as próximas chuvas nem servirá para elevar ou dissipar um cheiro a pús. Não: o vento ao passar sempre queimou a relva, e a ferida sempre cicatrizou cauterizada. Queimamos para encerrar o sistema de poderes. Para reunir o cheiro e com ele mascarrar as narinas internas. É assim que ternamente levamos.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Quero: 1) a vibração do alegre; 2) a insenção de Mozart, já!

sábado, 9 de maio de 2009

A meus braços

Se um só daqueles papelinhos se desdobrasse e alarvemente em vão pedisse que nem um só -nem um!- cabelo fosse tocado, diria que:
Já nenhuma luta me protege/ Estou no que ao relento de mim/ foge/ E fica. Luta. REÚNE.
Uou uou uou uou.

domingo, 3 de maio de 2009

El libro de sombras


1

abrir sulcos

buracos
clareiras

2
obedecer sempre à natureza (para saber onde rasgar)


3
o que é diferente de a imitar.
Nos seus mecanismos que são obscuros: não trazer a lume -à tona- os peixes negros do fundo.

4
mesmo aprendendo com a espera, os mecanismos que nadam.

5
Enfim, cavar.
Isto é,
Ao longe

(com desdém),

alguém

faz o lume.


terça-feira, 28 de abril de 2009

Meu caro gigante verde,

o amor é um dédalo mortal,
o amor é um dédalo mortal,
o amor é um dédalo mortal.


cortaste a cabeça e sem ela e com a ajuda de uma marmoreada enxada cavaste directo para a lógica da construção do murete.
Disponho-a aqui como uma colecção de ossos. Gigante, ninguém sabe mas no que toca a estas mãos a lógica para a construção é a estreita passagem entre as árvores:

crâne
clavícula esquerda clavícula direita
caixa
bras/main gauches bras/main droites
bacia
mesa
perna esquerda perna direita
pieds

terça-feira, 14 de abril de 2009

A doutrina herética de certos artistas já, pobres, tão magoados


Misteriosamente o ferro é dobrado. Consumamos sacrifícios onde fazemos entrar em nós belíssimos objectos, frutos, cascas de árvore. Mas misteriosamente o fogo dobra aquilo que veio para ser duro. E se um obscuro trabalho se dedica a iluminar as hastes do medo, não deve querer apontar nenhum caminho, confiamos.



quinta-feira, 9 de abril de 2009

Et pourquoi veut-elle voir ce rayon vert?

Ter nos próprios termos uma obsessão que em tempos foi qualquer coisa muito próxima de um rigor. E que depois disso precisou de erguer um teatro anatómico só para si. Teatro que era afinal, a praça.
Obsessão que jamais estreita o léxico, mas que a tudo levanta sucessivos cercos como uma aldeia de irredutíveis crescendo do centro para fora, e vice-versa, obsessão. Não é repetição ter um alfabeto reincisivo. Pouco talvez, o sangue. Mas espesso.


Cendres, sulco, externo, raio verde. Amor nunca.

23 Fevereiro 2009

sábado, 4 de abril de 2009

La devota,

Teve a infância povoada daqueles olhos libidinosos. Entre os folhos e as gavetas, o diário e as chavinhas, a santíssima devoção. Tanto S.Sebastião cravejado, tanto lado escorrendo e afinal no hall sempre esteve Daniel. Entre os leões.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

OSTINATO RIGORE

casa meva não tem portões para que se não leia:

Sister Irma III (el Muerto, el increíble)




[Aqui a descrição da sua pequeníssima e não tão contida assim pintura de Cristo a Ser Carregado para o Sepulcro no Jardim de José de Arimatéia.
Mostrar a figura da mulher que está voltada para o observador e que nos acena freneticamente para que larguemos tudo e corramos a ver. E a levar.
Mas sobretudo mostrar a figura, a imensa possibilidade da figura de Maria Madalena que caminha destacada da multidão e cuja postura, cara, cores em nada indicam o grau de intimidade com O Falecido.]




quinta-feira, 2 de abril de 2009

Vinte e cinco (XXV)

Minha irmã cuja voz estoirou pelos vermes e pelo breu.

Nem acordando esta manhã repentinamente rodeada de água; nem esta ilha difícil no meio mesmo do ventre mediterrânico (Difícil porque... bom, agora talvez seja um pouco tarde demais para falar da circularidade das casas e da minha mansidão). Mas nem a ilha com as suas casas comigo lá dentro, nem isso. Nem isso me impede de inchar na feliz coincidência da data, do dia-o-mesmo. Não há omoplatas para a minha cabeça, nem mãos para a felicidade que me coube: o a vir a mesma afirmação da falta.

segunda-feira, 23 de março de 2009


DANILA, chamei-te
mas tinhas arrancado
já, furioso
cheio de razão,
cheio do espírito,

três anos antes.


terça-feira, 17 de março de 2009

Hammām

Madalena, a doce. Cujo gesto, disse alguém, haveria de perdurar para sempre. O gesto tão tremendamente sensual de onde deriva, directa, directíssima a santa unção que o flácido bispo agora aplica num complicado crisma. Bálsamo que é pura alusão da memória do viver cristão. Viver que, quebrada a finíssima casca do ovo que encerrava os poderes, tratou de escorrer e de se apartar da linguagem; bálsamo que é agora testemunha dessa nebulada imersão do bom bispo, que na hora banho lava os cabelos como se fossem longos. Porque tem no pensamento uma mulher. Магдалина.

terça-feira, 10 de março de 2009

Via lunga

para mim fizeste, entre esconsos, um solarengo quarto noutra cidade (não era Berlim). Para mim, tu que sempre foste a minha impávida anfitriã. Mesmo na guerra (e era a guerra).
Assim uma larga escadaria de pedra adornava o palacete e prometia. E em todas as rasgadas divisões se improvisaram os amorosos refúgios de campanha: sucessivas tendas dentro dos salões envidraçados (e uma era para mim).
Como cama, uma rede atravessada e de resto, nada. É, foi verão na nossa noite.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Os homens nus na escultura não são tão bonitos como as rãs

Que a escultura não comova jamais, que se mantenha intacta sem truques no seu sentido, que impassível se erga e forte até, mas que aí fique. Alta, alta.
Quem chorou já por uma parede, que acuse a pedra. A única mulher que realmente amou uma fachada - que vinha acariciar a pedra quente nos dias de sol e fazia companhia, com um pequeno guarda-chuva, nas noites de trovoada- fê-lo por cansaço.

terça-feira, 3 de março de 2009

A apresentacao do rosto:


Encontrei o meu anjo
sentado numa turva plateia.
Fumava um cigarro,
com os olhos brilhantes.

Sandro Penna


segunda-feira, 2 de março de 2009

20 C - 50%

Só um desenho orgânico, mesmo agênsico, poderá eventualmente a impressão da Poesia - unique source, dentro de um túmulo (agua, lama e pouco mais) refrigerado por uma complicada tubagem que um ex-motor a 4 (quatro) tempos alimenta.
Estranho túmulo, penso, refrigerado. Seja qual for o sistema, precise ou não de alimentação exterior, gasóleo fumo combustão, em que fundados, fundadíssimos factos científicos se baseia alguém para determinar a temperatura ideal para a conservação daquilo que arde, que arderá sempre, por toda a eternidade?

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

M'illumino d'immenso

Em Santa Maria La Longa, um anjo turvo de mim se desprendeu para escrever um único e impressionante verso. Sem pinheiros e seguinte falésia e consequente mar. Sem cadeiras ao sol, pelo mesmo abismo.
Não sei se estava fechado quando aconteceu, a luz que haveria. Se repetia os gestos que em nada se distinguem dos demais; se conheceu alguma vez, ainda que tão remotamente, o poder que tinha, assim por ter; se escolhia. Esta foi a primeira vez, e creio que veio como chega a terra firme primeiro aos olhos do marinheiro e depois, só depois, ao horizonte. Corria o ano de 1917. No mundo, um minuto.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

O vento,

Meu deus quanto tentou Daniel no deserto, entre os leões; tentou Jeremias, pelo seu prato de areia; tentou João, sobre aquele que viria; tentaram tantos, pela confusão do pó, da raiva e das despistadas abluções. Agora tentamos nós, pelas noites, a pura sedução. Só para sermos ouvidos, só para alcançar esse ouvido.
A alguém que julgo dormir conto o que não pode ser dito. Dizem que é isso rezar.