domingo, 4 de outubro de 2009

Apenas a dedicatória,


Ao Joaquim porque é já o peixe negro que desde a antecâmara da vida (o desejo) soube abrir dois minúsculos olhos que me fixam atentamente.

E que me excedem.

-Filho, digo.

sábado, 26 de setembro de 2009

Há trinta mil anos

aquelas mãos encontradas nas grutas do atlântico-sul- por vezes pretas, azuis e nunca vermelhas- são a cabeça primogénita do grito daquele
que exala
e exala ainda:

Eu sou aquele que ch-ama porque tu és nomeável,
ó virgem de quarenta cabeças, de outras trinta coroada!

Canto para pilhar os teus juncos entrançados,

a tua cabeça
alta
toda à escuta.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009


RODA A DOR NA RODA DE CHORO

domingo, 20 de setembro de 2009

"SEREIO"


Homens tão inamovíveis que são de fogo!
Homens tão inamovíveis que são de fogo!

Nova Novo Brando Som - Artéia a última palavra de milhares de peixes negros esdita.

Para o António

Rinpoche M. não era na verdade a Madre. (por quem se corre). Apenas - e foi ela que assim o disse -um dia leu. Isso mesmo: um dia levantou. Teve coragem e abriu o canto assim, súbitamente.
Naquele
tempo deserto, Rimpoche M. disse um poema como uma oração - Não pelo facto de toda a poesia ser passível de ser rezada porque mantém a única coisa que realmente conta numa vida religiosa (o distanciamento), mas antes como se indistinta, uma proa fálica aflorasse à tona desse pântano. A voz no deserto. O sopro. O bardo. Vernunft. Alguém Cantando. 
Rinpoche M. disse-o e o poema surgiu único, messiânico mesmo. Então todos cantaram e muitos, cantando, rezaram; alguns penetraram mesmo a sua demanda; alguém, alguém entendeu seu coração e dessa cadência (e da outra que não sei dizer assim de um modo explícito) nasceu um mantra que aplacou aquela instigante e mortal-doce ordem de Paulo: Rezai incessantemente.
Portanto não era Rinpoche M. a cabeça do poema, embora fosse o pulso que o pôde escrever porque à noite um homem é também a hipótese de fecundação. E é
ele, o poeta, que inspira e exala a 0.01 peixes negros por segundo o sémen que refulga, e refulge de uma só volta como a uma caverna o mar; e entrando-o ela volta a sair, fecunda, prenhe daquelas milhares de cabecinhas que depois esmagaria para poder escrever a tinta. 
No meio da folha, intacta, a única palavra do poema. ARTÉMIA. ARTEIA.

24 de Agosto de 2009

sábado, 12 de setembro de 2009

EFRAÍN,


chamei-te mas
tinhas partido já
cheio do espirito

e eu que ficasse cheia
da tua espada de carne.

terça-feira, 1 de setembro de 2009



SETEMBRO



sábado, 8 de agosto de 2009

um céu intracardíaco, literalmente.



O trabalho do atleta é penetrar o seu músculo.


terça-feira, 21 de julho de 2009

Vem (Não vem)


Um corpo que nada se rala em estreitar os gestos à brandura do ridículo, antes descansa. Como descansam os homens desesperadamente sós.
Por exemplo aqueles que à força de circunstâncias que desconheço, se achavam num determinado sítio insular, e que estando desprovidos da consciência do seu desespero, nem o corpo que tinham conheciam bem: Não houve um só capaz de construir uma embarcação.
Esses homens a que, ainda assim, aquela obscura força impelia ao chamamento: pelas tarde eles se entregavam todos no gesto (ridículo, sabiam-no) de chamar; de, imagine-se, soprar num búzio.

Lógica para a construção do murete II

La vie ne trouve sa grandeur que dans l'extase et l'amour extatique.
O homem escapa à sua cabeça como um condenado escapa à prisão.

Encontrou no fundo de si não Deus, que é a proibição do crime, mas um ser que ignora a proibição. Ao fundo daquilo que sou, encontro um ser que me faz rir porque é sem cabeça, que me extraí à angústia porque ele mesmo é feito de inocência e de crime: tem na mão esquerda uma arma de ferro, e na direita chamas que se assemelham a um sagrado-coração. Ele reuniu na mesma erupção o Nascimento e a Morte. Ele não é um homem. Muito menos um deus. Ele não é eu, mas é-o mais do que eu  próprio: O seu ventre é o dédalo no qual ele se extravia de si mesmo, e eu com ele. E no qual me encontro tornando-me ele. Isto é (, o) monstro.  



A. pousa a enxada para fazer o segundo sangramento do dia: me embrujaste, me embrujaste.



notas para a construção,


a largueza do gesto (e a mecanização dessa extensão);
a necessidade de descanso (da cabeça no corpo);
a garantia da repetição;
a automatização da intenção;
o reconhecimento (qualquer um serve);

Ritual- A marcação antiga do ritmo que já não nos pertence, a estreiteza com a terra.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Détachement

Depois foi a derrocada da casa, cumprindo assim uma a uma, suas leis. Mas não entendi, a rapariguinha de cabelos de cinza fez questão de habitar os escombros com uma singeleza que jamais usara em vida.
Escombros escandindo, guardando da pedra a dureza que a torna pedra mas agora nela deitar-se para dormir ou assim; Agora da pilha de entulho um ombro nu aflora como uma ilha independente; Uno se vuelve tan fuerte que pa nada le hace falta el mundo.

segunda-feira, 22 de junho de 2009



PARA QUE ESTE MUNDO NÃO ACABE


segunda-feira, 15 de junho de 2009

Gumbo

Naqueles dias nada era mais importante que os solitários passeios a que o homem se entregava (a obrigação era diária apesar da duração da excursão ser, quase sempre, variável), e dos quais não soubemos nunca nada- apenas 1) a velatura que trazia nos olhos e 2) que o trajecto sempre ia pela água, além da faixa de palmas bravas. Nada, nem os homens agrilhoados, nem a água lambendo a terra, nem a sua história nem a nossa, nada sobre nós era tão importante como aqueles passeios desesperados; os lugares que visitaria, as coisas que não veria, imerso que estava no transe de deambular e dois quais, de qualquer forma, nada saberíamos.
Tudo isto testemunhámos porque uma mulher permaneceu no alpendre. Não esperando o regresso do homem. Simplesmente ali se encontrava, mirando em frente. Talvez curando alguma dor, talvez entregue ao ocioso vazio que depois dela vem, só ali. Olhando em frente, cheirando a comida mas olhando em frente.
Então o homem chamado Gabriel aparecia. E desaparecia, lá para dentro.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Na noite que a serra escande

já só sei dizer nomes próprios. Soletrar. Cantar que os meus estão na rua e ficar-lhes com as pernas maciças. Antão Tomé Joana João. Isto é rezar.



segunda-feira, 8 de junho de 2009

Palmeiras com nomes próprios

 

Uma grave e arguta elucidação em alemão para as massas salvou meu desenho a carvão- explicou-me, quebra por quebra, as tensões circulares a que se ofereceria, antes de tudo, antes do olho. Assim, desde última fila no topo da colina até à boca da ópera (era uma montanha) deixei que ele se fizesse e me entreguei no esforço de acompanhar aquilo que já por si desbravaria (é uma canseira a vocação).


Regressei de trabalho feito para uma montanha vazia, um irmão já crescido, os amigos perdidos.


Louco o homem que trabalhou, que se afincou numa lavra e nessa distância sulcou bem fundo um trabalho, uma obsessão. E agora de trabalho feito, a vida cava no corpo (nas mãos) uma ressaca e o nosso louco declina a sua companhia natural, essa doença, e sai para a costa. Digamos: é a festa do estio.

E se ele raivoso procura desenfreadamente colina acima, colina abaixo, desfazer-se com as marés; beber em quantidades idênticas ao que pensa ser a piscina do mar; correr pelo meio dos cardos, picar-se; deixar, e arrepender-se de ter deixado, o livro à guarda de um carcereiro alimentador de ratas do tamanho de pequenos leõezinhos (que vêm comer à mão dela, que é a prisioneira-mor), é porque chegada a noite ou lá o que é, se deita para dormir e sonha, sonha muito. Que consigo descem pelas encostas todos os queridos, e que ao subir encontra, já sem surpresa, os desaparecidos.


Minha mãe eu

corro.


quinta-feira, 4 de junho de 2009

The slope II

Com que dentes arranhar um novo amor? A pergunta é sempre a mesma, e Maria Teresa maldiz um certo, certeiríssimo amante que do corpo lhe arrancou a luz à bombilhada.

Eu penso nela. O corredor não pensa em nada. Lá dentro um homem -novo- perde a cara, a juventude e quiçá a parca vida.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

"TATU"

É uma casa colonial escabrosamente alçada em dois pisos. A fachada picada e caiada não acusa nenhuma orientação solar (talvez esteja virada a Este), mas antes volta toda a casa no movimento que acompanha um inesperado percurso vulcânico, uma coisa assim muito insular. Dir-se-ia que espera naturalmente uma erupção. Ao olhá-la de cá parece-me compreender o seu projecto e calo creio que obscuramente entendo a tua vontade secreta de uma imobilidade indiferente, para abolir o tempo. Para o esperar. Sem paciência.
Portanto num painel de azulejos mandei inscrever a misteriosa legenda. Agora, como a um medalhão, dedico-me a olvidar o resto e a habitar somente essa legenda com a estranheza da deslocação. Admito que exista, sim, a intenção de um lento cultivo para o delicado desconforto do lar. E talvez com o fim do Verão ele chegue assim, como uma jóia- a ostentação de um quase constante desfasamento.

Faço tudo o que posso para permitir ao longe o restolhar das folhas das palmeiras, umas contra as outras. Quero dizer, faço tudo o que posso para permitir a fúria imobilidade da loucura. E não me referir jamais ao mar.

Agora para dentro. Devagar, depressa e devagar.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

precinha (na orla mmarítima)



E que Deus nunca me dê a graça
da coisa performativa.

Antes lajes maciças
rodopiando e atravessando (os céus);
E pedra-pommes apetecíveis
abrasando os dentes.

Mas se der, que deia.
E seja feita a Sua vontade

história da caçadora de pérolas e o mergulhador de apneia:






Os dois vencemos um
bicho chamado
CANÇÃO

Portanto entre nós (será)
a dança






Maladresses pour s'evader du lit (La femme qui tombe)

Oh estupor... - e começou a rir; era um riso duro e não alto, como vomitar e tossir - Aí está. É isso. Como jogar aos dados. Sai o sete. Sai o onze. Talvez que, se eu for capaz de repetir isto... - Ele (o médico) bem os ouvia (...) a mulher ainda a rir, não alto, com o abstracto e furioso desespero que lhe vira antes nos olhos.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Atelier

Da poeira que cobria o imenso estercal (mesmo as ferramentas encostadas, largadas para ali), nada a referir desse abandono homogéneo. No entanto, e principalmente aos cantos, haviam: uma mosca de pernas para o ar; uma traça putrefacta; uma casca de ovo (amarela, retesada, cristalizada na expulsão); um pêro podre; e o cinzeiro (na vez das larvas).
- Quanto mais espero, mais se amontoam as pequenas mortes.

E saiu, esfregando as mãos na alegria da construção.

VASCO, CANÇÃO

As nossas vítimas são
a nossa melhor parte,
Eurídice, crescem depois
de mortas
e ocupam-nos como bússolas ou
rosa-dos-ventos.


Quem teve o privilégio, Eurídice? Foste tu ou
fui eu?

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Expulsão: Cena primitiva do desvelo. Acto I

os mortos estão vivos para os vivos e os vivos mortos para os mortos

Só há duas idades na vida: antes e depois da morte da mãe.
(Todas as outras divisões etárias são sociáveis ou falsas.)

Não choro por tu estares morta mas porque eu, enquanto viver, estarei morta para ti.

Doravante, calarei para dizer, como Hölderlin, Sou «a criança dos cabelos de cinza». A que intenta habitar o intervalo entre as duas idades. O Artista. Aquele que aceita - e não aceita- a morte imemorial da mãe.

Vivo. Isto é, ouvir-te ainda dizer: depois de mim, vivei antes de mim.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Terna É a Noite do 13 de Maio

Fiz-lhe prometer: Não trabalhar nunca na ferida. E se por uma distracção, tal falha de santidade sucede, que eu morra como o peixe. Par la bouche de ma blessure. Que assim é da maneira que nem a boca do espanto cessa, nem o lado deixa de escorrer. Não trabalhar nunca na ferida mas se assim for, não trabalhar nunca a ferida. Para que ela jorre.
Para que eu de alguém possa tirar o molde em cera dos seu orgãos todos, os internos, e depois os deitar à grande labareda da noite que é o ritual pagão do santuário que só nos ascende a naúsea e a interior gargalhada do fogo- Não é bem uma queimada isto, não trará plantas novas com as próximas chuvas nem servirá para elevar ou dissipar um cheiro a pús. Não: o vento ao passar sempre queimou a relva, e a ferida sempre cicatrizou cauterizada. Queimamos para encerrar o sistema de poderes. Para reunir o cheiro e com ele mascarrar as narinas internas. É assim que ternamente levamos.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Quero: 1) a vibração do alegre; 2) a insenção de Mozart, já!

sábado, 9 de maio de 2009

A meus braços

Se um só daqueles papelinhos se desdobrasse e alarvemente em vão pedisse que nem um só -nem um!- cabelo fosse tocado, diria que:
Já nenhuma luta me protege/ Estou no que ao relento de mim/ foge/ E fica. Luta. REÚNE.
Uou uou uou uou.

domingo, 3 de maio de 2009

El libro de sombras


1

abrir sulcos

buracos
clareiras

2
obedecer sempre à natureza (para saber onde rasgar)


3
o que é diferente de a imitar.
Nos seus mecanismos que são obscuros: não trazer a lume -à tona- os peixes negros do fundo.

4
mesmo aprendendo com a espera, os mecanismos que nadam.

5
Enfim, cavar.
Isto é,
Ao longe

(com desdém),

alguém

faz o lume.


terça-feira, 28 de abril de 2009

Meu caro gigante verde,

o amor é um dédalo mortal,
o amor é um dédalo mortal,
o amor é um dédalo mortal.


cortaste a cabeça e sem ela e com a ajuda de uma marmoreada enxada cavaste directo para a lógica da construção do murete.
Disponho-a aqui como uma colecção de ossos. Gigante, ninguém sabe mas no que toca a estas mãos a lógica para a construção é a estreita passagem entre as árvores:

crâne
clavícula esquerda clavícula direita
caixa
bras/main gauches bras/main droites
bacia
mesa
perna esquerda perna direita
pieds

terça-feira, 14 de abril de 2009

A doutrina herética de certos artistas já, pobres, tão magoados


Misteriosamente o ferro é dobrado. Consumamos sacrifícios onde fazemos entrar em nós belíssimos objectos, frutos, cascas de árvore. Mas misteriosamente o fogo dobra aquilo que veio para ser duro. E se um obscuro trabalho se dedica a iluminar as hastes do medo, não deve querer apontar nenhum caminho, confiamos.



quinta-feira, 9 de abril de 2009

Et pourquoi veut-elle voir ce rayon vert?

Ter nos próprios termos uma obsessão que em tempos foi qualquer coisa muito próxima de um rigor. E que depois disso precisou de erguer um teatro anatómico só para si. Teatro que era afinal, a praça.
Obsessão que jamais estreita o léxico, mas que a tudo levanta sucessivos cercos como uma aldeia de irredutíveis crescendo do centro para fora, e vice-versa, obsessão. Não é repetição ter um alfabeto reincisivo. Pouco talvez, o sangue. Mas espesso.


Cendres, sulco, externo, raio verde. Amor nunca.

23 Fevereiro 2009

sábado, 4 de abril de 2009

La devota,

Teve a infância povoada daqueles olhos libidinosos. Entre os folhos e as gavetas, o diário e as chavinhas, a santíssima devoção. Tanto S.Sebastião cravejado, tanto lado escorrendo e afinal no hall sempre esteve Daniel. Entre os leões.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

OSTINATO RIGORE

casa meva não tem portões para que se não leia:

Sister Irma III (el Muerto, el increíble)




[Aqui a descrição da sua pequeníssima e não tão contida assim pintura de Cristo a Ser Carregado para o Sepulcro no Jardim de José de Arimatéia.
Mostrar a figura da mulher que está voltada para o observador e que nos acena freneticamente para que larguemos tudo e corramos a ver. E a levar.
Mas sobretudo mostrar a figura, a imensa possibilidade da figura de Maria Madalena que caminha destacada da multidão e cuja postura, cara, cores em nada indicam o grau de intimidade com O Falecido.]




quinta-feira, 2 de abril de 2009

Vinte e cinco (XXV)

Minha irmã cuja voz estoirou pelos vermes e pelo breu.

Nem acordando esta manhã repentinamente rodeada de água; nem esta ilha difícil no meio mesmo do ventre mediterrânico (Difícil porque... bom, agora talvez seja um pouco tarde demais para falar da circularidade das casas e da minha mansidão). Mas nem a ilha com as suas casas comigo lá dentro, nem isso. Nem isso me impede de inchar na feliz coincidência da data, do dia-o-mesmo. Não há omoplatas para a minha cabeça, nem mãos para a felicidade que me coube: o a vir a mesma afirmação da falta.

segunda-feira, 23 de março de 2009


DANILA, chamei-te
mas tinhas arrancado
já, furioso
cheio de razão,
cheio do espírito,

três anos antes.


terça-feira, 17 de março de 2009

Hammām

Madalena, a doce. Cujo gesto, disse alguém, haveria de perdurar para sempre. O gesto tão tremendamente sensual de onde deriva, directa, directíssima a santa unção que o flácido bispo agora aplica num complicado crisma. Bálsamo que é pura alusão da memória do viver cristão. Viver que, quebrada a finíssima casca do ovo que encerrava os poderes, tratou de escorrer e de se apartar da linguagem; bálsamo que é agora testemunha dessa nebulada imersão do bom bispo, que na hora banho lava os cabelos como se fossem longos. Porque tem no pensamento uma mulher. Магдалина.

terça-feira, 10 de março de 2009

Via lunga

para mim fizeste, entre esconsos, um solarengo quarto noutra cidade (não era Berlim). Para mim, tu que sempre foste a minha impávida anfitriã. Mesmo na guerra (e era a guerra).
Assim uma larga escadaria de pedra adornava o palacete e prometia. E em todas as rasgadas divisões se improvisaram os amorosos refúgios de campanha: sucessivas tendas dentro dos salões envidraçados (e uma era para mim).
Como cama, uma rede atravessada e de resto, nada. É, foi verão na nossa noite.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Os homens nus na escultura não são tão bonitos como as rãs

Que a escultura não comova jamais, que se mantenha intacta sem truques no seu sentido, que impassível se erga e forte até, mas que aí fique. Alta, alta.
Quem chorou já por uma parede, que acuse a pedra. A única mulher que realmente amou uma fachada - que vinha acariciar a pedra quente nos dias de sol e fazia companhia, com um pequeno guarda-chuva, nas noites de trovoada- fê-lo por cansaço.

terça-feira, 3 de março de 2009

A apresentacao do rosto:


Encontrei o meu anjo
sentado numa turva plateia.
Fumava um cigarro,
com os olhos brilhantes.

Sandro Penna


segunda-feira, 2 de março de 2009

20 C - 50%

Só um desenho orgânico, mesmo agênsico, poderá eventualmente a impressão da Poesia - unique source, dentro de um túmulo (agua, lama e pouco mais) refrigerado por uma complicada tubagem que um ex-motor a 4 (quatro) tempos alimenta.
Estranho túmulo, penso, refrigerado. Seja qual for o sistema, precise ou não de alimentação exterior, gasóleo fumo combustão, em que fundados, fundadíssimos factos científicos se baseia alguém para determinar a temperatura ideal para a conservação daquilo que arde, que arderá sempre, por toda a eternidade?

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

M'illumino d'immenso

Em Santa Maria La Longa, um anjo turvo de mim se desprendeu para escrever um único e impressionante verso. Sem pinheiros e seguinte falésia e consequente mar. Sem cadeiras ao sol, pelo mesmo abismo.
Não sei se estava fechado quando aconteceu, a luz que haveria. Se repetia os gestos que em nada se distinguem dos demais; se conheceu alguma vez, ainda que tão remotamente, o poder que tinha, assim por ter; se escolhia. Esta foi a primeira vez, e creio que veio como chega a terra firme primeiro aos olhos do marinheiro e depois, só depois, ao horizonte. Corria o ano de 1917. No mundo, um minuto.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

O vento,

Meu deus quanto tentou Daniel no deserto, entre os leões; tentou Jeremias, pelo seu prato de areia; tentou João, sobre aquele que viria; tentaram tantos, pela confusão do pó, da raiva e das despistadas abluções. Agora tentamos nós, pelas noites, a pura sedução. Só para sermos ouvidos, só para alcançar esse ouvido.
A alguém que julgo dormir conto o que não pode ser dito. Dizem que é isso rezar.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Lourdes

O parco exercício dar nome próprio às coisas, de as chamar a nós, é querer para elas um futuro estreito. É não poder amá-las a não ser que possamos estar sempre a mudá-las um bocadinho. É querer que adoptem a mesma forma, é insistir na sua angularidade. Uma e outra vez, qualquer coisa que se erga concreta, concreta.
Porém o augusto ímpeto de nomear não me parece tão descabido daqui deste leito onde, à falta de filhos e de estrutura anatómica, chamo para mim o que ciranda pelo quarto e tem, quase por diversão, o meu nome na sua garganta.
Entre os outros, fixo a vontade, chamo-lhe Lourdes e ponho-a de joelhos à espera do que virá.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Imamzadeh zeid

Cantar contra a angina de peito. The, as you would put it, terrifying dread. Eu canto, sempre cantei mas agora nos corredores laterais deste santuario, numa penumbra que nada deve ao recolhimento, apenas serve uma especie de frescura, de conforto ancestral, negam-me o canto. Faco bom uso da tal penumbra e misturo-me com os demais vultos cobertos. Eles que descubram qual das insurgentes canta o fado.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

P.

não lê, não é desses. A pertencer a algum lado pertencerá, como oiço dizer por aí, aos orgulhosos não literados. Eu pela minha parte posso, com alguma franqueza, dizer que não foi nenhuma espécie de zelo evangélico que me possuiu e me fez oferecer-lhe todos os livros dela. Todos. Cronologicamente. Foi antes uma coisa muito próxima de um amor branco, um inexorável agente homogeneizador, uma capa de neve. Talvez tenha sido só dor. Sei isso porque, para além de mim, ela soube tudo o que era preciso.
Penso que não acabou nenhum. Penso que os encetou a todos- Todos a mesma história. Penso que dá o devido valor àquela imensa inteligência (que de nós também escorre, trôpega).
Pega numa frase, uma só, e foge com ela. Essa, que é a única frase escrita sobre a terra. Clarice.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Tout ébranler pour conaître l'innebranlable.


Como aquele olho que às vezes está pintado à proa dos barcos, tudo desvendar, desocultar, descobrir, por deus, desvelar. Não: recuso esta espécie de doutrina herética do conhecimento, banqueteada de cinzas.
Dos marinheiros o medo, dos gregos o grego, de minha mãe sua língua. E basta de poder com o que não nos pertence. O mar tem os seus segredos, eu tenho os meus.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

i was made to love magic

Pois nem num nem noutro lado me verás deitar.
Chamas-me mimética, entre outros cúmulos, mas sei que admites que talvez por isso os nossos sapatos não sejam um cais de vento, lama e lodo. Diga-se: não é o amor, é uma alegria mais complicada a que nos dedicámos os dois como propósito de ano e outras mumunhas mais. Mas voltando aos sapatos, ao cais destes irredutíveis bailarinos, bem sabemos que foram eles a razão para a nossa cabeça a mais. Uma cabeça acima para cada um, por favor.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Gonçalo M. Tavares, o boxeur

Não gosto do tipo, nadinha. Eu que já admiti desconfiar dos laboriosos, para este poeta da bombazine não vai nem uma ameixa do meu espanto, que eu não gosto de embustes.
Haja paciência para este maomé que me chega cravejado de milagres como se os trouxesse desde sempre. Como se fosse anterior. Como se um milagre prescindisse de tempo. De anos e anos de espera, povos inteiros, milhares de cânticos.
E depois o homem tem pressa, se tem. Deve saber melhor que ninguém que a esperteza dá para boxeur, dá para espião, mas não serve a literatura, quanto mais a poesia. «Adorar a pedra é ainda ser-se Pedra», foi o que ele não aprendeu. No entanto o prolífico senhor em nada se coíbe de usar e abusar de uma terna linguagem evasiva que se esquiva de qualquer CONSTRUÇÃO. Insulta-me na sua ostentação, este místico de trazer por casa.
É um impostor disparando pérolas. Eu sei. Os impostores, ao passarem de raspão, reconhecem-se. E não se cumprimentam.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

post sentimental por atacado

(Calçada do combro)

canções que são autênticos crimes com vítimas rolando pelas colinas da amada cidade, tão nossa; canções cujo deslize oblíquo em certas notas tiram o coração dos atalhos; canções que até trazem o sol à estufa, o crescimento é connosco; canções que -já disse- são um sopapo na cara do fraco.
Quais?

sábado, 24 de janeiro de 2009

devil's light porch on:

tii-iime is on my side,

yes it is.

A irmã Irma II

Pergunto-me se estará familiarizada com o que ele (S. Francisco de Assis) disse quando estavam prestes a cauterizar-lhe um dos globos oculares com um ferro em brasa. Assim falou: "Irmão Fogo, Deus que te fez belo e forte e útil; rezo para que sejas delicado comigo."
Você pinta como ele fala.

A irmã Irma I

Talvez fosse um palpite arrojado mas o manuscrito encontrado não se destinaria decerto à velha matriarca, mas a uma das suas inúmeras filhas de deus. Talvez, e esticando a corda até ao limite da resistência da fibra, a carta cujo achado correspondeu à única quantidade considerável de rubor a alguma vez escorrer de tais paredes desde o ano da graça de 1870 (o leitor terá achado oportuno ou não que os anteriores anos tenham ficado de fora desta pequena pudorada baliza cronológica), destinava-se, dizia então com algum arrojo, à querida irmã Irma. Freira pequena e delicada, cujos traços físicos não vou sequer tentar descrever; que apenas ora e ama a Deus. Essa mesma pequena flor a que todos nós, num ou noutro momento mais enrascado da nossa vida, nos consagrámos. E cuja notável habilidade para pintura (na íntegra, para O amar e servir) possa ter despoletado tal carta. Eu, pela minha parte ponho-me lado a lado com o autor, agnóstico, mas como ele próprio afirmava, amante à distância de S. Francisco de Assis.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

pequeno inselberg

Yeh yeh yeh faço tudo o que posso na questão
da sobrevivência
inocência isso
é balela pequena
que sempre acaba sendo
maior na minha cama.

com as caras pintadas de preto
rodeados de pretos mesmo a gente bebe
de sua vasilha o antigo
ritual da sede que a água ensina
e nós desconhecemos
e continuaremos a desconhecer,
apesar da paródia per omnia

Ao fundo, quase com desdém, alguém faz lume:
se um leopardo arde no fogo
o grupo de farsantes desanima.


Depois das queimadas a chuva,
insiste a terra.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Deixar a festa, entrar no carro, dormir de sobretudo vestido, acordar outro.

Como Parmigianino, há uns esplendorosos V (cinco) séculos atrás, deixo a pintura para me dedicar à alquimia. Os que se precipitem em rápidas conclusões que incluam alguma espécie de desamor, sua consequente apatia e a demência que desta incorre, perdem o doce vislumbre de poder, ainda que remotamente, ver os olhos esgazeados de visões de uma devota Com Uma Verdadeira Vocação.
Eu sei que nenhum de nós aqui presente se sentirá minimamente confortável quando for forçado a dizer que é o cristal a base de uma desordem maior. Não há nada de natural na natureza.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Chega a mudez
e a gente, enfim,
dela tomba.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

pânico nocturno

Dai-nos Senhor a graça de uma vida devastada pelo amor, mas livrai-nos do medo de ver a prece atendida, amén.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

V.

O segredo da ruiva não é difícil de deslindar. Padece, com violência, de uma intrincada inveja que se levanta contumaz contra quem, sem querer (que querendo é outra coisa) tece histórias; contra quem se deita e se levanta com personagens; contra quem, durante a noite, cose de uma só costura os caprichos e uma ou outra timidez recorrente; contra quem sabe atravessar os dias pelas duas pontas, e se compraz tecendo solidamente uma coisa que nunca será. Que inveja bruta e cavalar tem a ruiva aos ficcionários. Os fazedores, que tal como ela dizem coisas. Só que lhes basta um sopro:

Estou cheia de pontos finais, continuou. Tresando a tiradas triunfais de segunda apanha, tenho o espírito embuído, possuído por um zelo quase evangélico, que se dedica com fervor ao lançamento de pedras lapidares para cima de cada frase. Ó cambada de pausas proféticas, huí de mim que nada quer de vós (excepto talvez o descanso numa ou noutra glória inatacável). Pareço-me muito com uma ilha de aproximação impossível. A tudo pondo sucessivos fins. Amores, descobertas, espantos, informações, diligências, amén. Só as histórias escapam. E isso porque me entretêm. Até esta pequena déspota contrariada tem os seus momentos de descontracção. Ou deverei dizer distracção?

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O quereres

Eu queria mais a tua voz, queria mais brutais paredes em bronze para que ela ressoasse ad eternum e assim per omnia de um a outro lado, um vai e vem incessante da cabeça ao pés da deusa, para adormecer finalmente em corpo dentro de um sino e atarantar uma outra pulsão cardíaca.
Eu queria sempre a tua voz a crescer a crescer e a fazer-me cair.
Eu queria o mar maior, já não me purifica como a tua voz, o mar. A tua voz que veio para cavar mais ondas.
Desfaz a amplitude das tuas cordas que nasceram metálicas, cordas que são para nós um plano de fuga inatacável, cordas que abrem nós nos externos dos pobres cordeiros que somos aos pés dessa voz. Não, não, não. Três vezes não.

sábado, 3 de janeiro de 2009

cais das colunas

Claro que canto mais um, podes arder;
Claro que te dou guarida, que te abro a porta do osso miudinho, me faço una, sem costura;
Claro que podes vir, gritar contra uma parede de água, cansar-te contra qualquer um dos meus oito muros;
Claro que sou antiga, e que da lucidez futura perdi o meu vôo. E que já remei remos de madeira e piscinas vazias de noite. Claro o verbo atravessar;
Claro que esqueço;
Claro que choro duas enormes colunas à boca desse cais: Talvez não tão lentamente assim o terreiro do paço se tenha vindo a transformar no pranto de Lisboa. Ele, que era a sua boca.