sábado, 8 de agosto de 2009
terça-feira, 21 de julho de 2009
Vem (Não vem)
Lógica para a construção do murete II
A. pousa a enxada para fazer o segundo sangramento do dia: me embrujaste, me embrujaste.
notas para a construção,
terça-feira, 7 de julho de 2009
Détachement
segunda-feira, 22 de junho de 2009
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Gumbo
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Na noite que a serra escande
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Palmeiras com nomes próprios
Uma grave e arguta elucidação em alemão para as massas salvou meu desenho a carvão- explicou-me, quebra por quebra, as tensões circulares a que se ofereceria, antes de tudo, antes do olho. Assim, desde última fila no topo da colina até à boca da ópera (era uma montanha) deixei que ele se fizesse e me entreguei no esforço de acompanhar aquilo que já por si desbravaria (é uma canseira a vocação).
Regressei de trabalho feito para uma montanha vazia, um irmão já crescido, os amigos perdidos.
Louco o homem que trabalhou, que se afincou numa lavra e nessa distância sulcou bem fundo um trabalho, uma obsessão. E agora de trabalho feito, a vida cava no corpo (nas mãos) uma ressaca e o nosso louco declina a sua companhia natural, essa doença, e sai para a costa. Digamos: é a festa do estio.
E se ele raivoso procura desenfreadamente colina acima, colina abaixo, desfazer-se com as marés; beber em quantidades idênticas ao que pensa ser a piscina do mar; correr pelo meio dos cardos, picar-se; deixar, e arrepender-se de ter deixado, o livro à guarda de um carcereiro alimentador de ratas do tamanho de pequenos leõezinhos (que vêm comer à mão dela, que é a prisioneira-mor), é porque chegada a noite ou lá o que é, se deita para dormir e sonha, sonha muito. Que consigo descem pelas encostas todos os queridos, e que ao subir encontra, já sem surpresa, os desaparecidos.
Minha mãe eu
corro.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
The slope II
Eu penso nela. O corredor não pensa em nada. Lá dentro um homem -novo- perde a cara, a juventude e quiçá a parca vida.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
"TATU"
Portanto num painel de azulejos mandei inscrever a misteriosa legenda. Agora, como a um medalhão, dedico-me a olvidar o resto e a habitar somente essa legenda com a estranheza da deslocação. Admito que exista, sim, a intenção de um lento cultivo para o delicado desconforto do lar. E talvez com o fim do Verão ele chegue assim, como uma jóia- a ostentação de um quase constante desfasamento.
Faço tudo o que posso para permitir ao longe o restolhar das folhas das palmeiras, umas contra as outras. Quero dizer, faço tudo o que posso para permitir a fúria imobilidade da loucura. E não me referir jamais ao mar.
Agora para dentro. Devagar, depressa e devagar.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
precinha (na orla mmarítima)
história da caçadora de pérolas e o mergulhador de apneia:
Os dois vencemos um
bicho chamado
CANÇÃO
Portanto entre nós (será)
a dança
Maladresses pour s'evader du lit (La femme qui tombe)
terça-feira, 19 de maio de 2009
Atelier
- Quanto mais espero, mais se amontoam as pequenas mortes.
E saiu, esfregando as mãos na alegria da construção.
VASCO, CANÇÃO
a nossa melhor parte, Eurídice, crescem depois
rosa-dos-ventos.
fui eu?
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Expulsão: Cena primitiva do desvelo. Acto I
Não choro por tu estares morta mas porque eu, enquanto viver, estarei morta para ti.
Doravante, calarei para dizer, como Hölderlin, Sou «a criança dos cabelos de cinza». A que intenta habitar o intervalo entre as duas idades. O Artista. Aquele que aceita - e não aceita- a morte imemorial da mãe.
Vivo. Isto é, ouvir-te ainda dizer: depois de mim, vivei antes de mim.
terça-feira, 12 de maio de 2009
Terna É a Noite do 13 de Maio
Para que eu de alguém possa tirar o molde em cera dos seu orgãos todos, os internos, e depois os deitar à grande labareda da noite que é o ritual pagão do santuário que só nos ascende a naúsea e a interior gargalhada do fogo- Não é bem uma queimada isto, não trará plantas novas com as próximas chuvas nem servirá para elevar ou dissipar um cheiro a pús. Não: o vento ao passar sempre queimou a relva, e a ferida sempre cicatrizou cauterizada. Queimamos para encerrar o sistema de poderes. Para reunir o cheiro e com ele mascarrar as narinas internas. É assim que ternamente levamos.
sábado, 9 de maio de 2009
A meus braços
Já nenhuma luta me protege/ Estou no que ao relento de mim/ foge/ E fica. Luta. REÚNE.
Uou uou uou uou.
domingo, 3 de maio de 2009
El libro de sombras
1
abrir sulcos
buracos
clareiras
2
obedecer sempre à natureza (para saber onde rasgar)
3
o que é diferente de a imitar.
4
mesmo aprendendo com a espera, os mecanismos que nadam.
5
Enfim, cavar.
Isto é,
Ao longe
(com desdém),
alguém
faz o lume.
terça-feira, 28 de abril de 2009
Meu caro gigante verde,
o amor é um dédalo mortal.
cortaste a cabeça e sem ela e com a ajuda de uma marmoreada enxada cavaste directo para a lógica da construção do murete.
Disponho-a aqui como uma colecção de ossos. Gigante, ninguém sabe mas no que toca a estas mãos a lógica para a construção é a estreita passagem entre as árvores:
clavícula esquerda clavícula direita
caixa
bras/main gauches bras/main droites
bacia
mesa
perna esquerda perna direita
pieds
terça-feira, 14 de abril de 2009
A doutrina herética de certos artistas já, pobres, tão magoados
Misteriosamente o ferro é dobrado. Consumamos sacrifícios onde fazemos entrar em nós belíssimos objectos, frutos, cascas de árvore. Mas misteriosamente o fogo dobra aquilo que veio para ser duro. E se um obscuro trabalho se dedica a iluminar as hastes do medo, não deve querer apontar nenhum caminho, confiamos.
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Et pourquoi veut-elle voir ce rayon vert?
Obsessão que jamais estreita o léxico, mas que a tudo levanta sucessivos cercos como uma aldeia de irredutíveis crescendo do centro para fora, e vice-versa, obsessão. Não é repetição ter um alfabeto reincisivo. Pouco talvez, o sangue. Mas espesso.
Cendres, sulco, externo, raio verde. Amor nunca.
sábado, 4 de abril de 2009
La devota,
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Sister Irma III (el Muerto, el increíble)
[Aqui a descrição da sua pequeníssima e não tão contida assim pintura de Cristo a Ser Carregado para o Sepulcro no Jardim de José de Arimatéia.
Mostrar a figura da mulher que está voltada para o observador e que nos acena freneticamente para que larguemos tudo e corramos a ver. E a levar.
Mas sobretudo mostrar a figura, a imensa possibilidade da figura de Maria Madalena que caminha destacada da multidão e cuja postura, cara, cores em nada indicam o grau de intimidade com O Falecido.]
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Vinte e cinco (XXV)
segunda-feira, 23 de março de 2009
terça-feira, 17 de março de 2009
Hammām
terça-feira, 10 de março de 2009
Via lunga
Assim uma larga escadaria de pedra adornava o palacete e prometia. E em todas as rasgadas divisões se improvisaram os amorosos refúgios de campanha: sucessivas tendas dentro dos salões envidraçados (e uma era para mim).
Como cama, uma rede atravessada e de resto, nada. É, foi verão na nossa noite.
quarta-feira, 4 de março de 2009
Os homens nus na escultura não são tão bonitos como as rãs
Quem chorou já por uma parede, que acuse a pedra. A única mulher que realmente amou uma fachada - que vinha acariciar a pedra quente nos dias de sol e fazia companhia, com um pequeno guarda-chuva, nas noites de trovoada- fê-lo por cansaço.
terça-feira, 3 de março de 2009
A apresentacao do rosto:
Encontrei o meu anjo
sentado numa turva plateia.
Fumava um cigarro,
com os olhos brilhantes.
Sandro Penna
segunda-feira, 2 de março de 2009
20 C - 50%
Estranho túmulo, penso, refrigerado. Seja qual for o sistema, precise ou não de alimentação exterior, gasóleo fumo combustão, em que fundados, fundadíssimos factos científicos se baseia alguém para determinar a temperatura ideal para a conservação daquilo que arde, que arderá sempre, por toda a eternidade?
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
M'illumino d'immenso
Não sei se estava fechado quando aconteceu, a luz que haveria. Se repetia os gestos que em nada se distinguem dos demais; se conheceu alguma vez, ainda que tão remotamente, o poder que tinha, assim por ter; se escolhia. Esta foi a primeira vez, e creio que veio como chega a terra firme primeiro aos olhos do marinheiro e depois, só depois, ao horizonte. Corria o ano de 1917. No mundo, um minuto.
sábado, 21 de fevereiro de 2009
O vento,
A alguém que julgo dormir conto o que não pode ser dito. Dizem que é isso rezar.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Lourdes
Porém o augusto ímpeto de nomear não me parece tão descabido daqui deste leito onde, à falta de filhos e de estrutura anatómica, chamo para mim o que ciranda pelo quarto e tem, quase por diversão, o meu nome na sua garganta.
Entre os outros, fixo a vontade, chamo-lhe Lourdes e ponho-a de joelhos à espera do que virá.
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Imamzadeh zeid
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
P.
Penso que não acabou nenhum. Penso que os encetou a todos- Todos a mesma história. Penso que dá o devido valor àquela imensa inteligência (que de nós também escorre, trôpega).
Pega numa frase, uma só, e foge com ela. Essa, que é a única frase escrita sobre a terra. Clarice.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Tout ébranler pour conaître l'innebranlable.
Como aquele olho que às vezes está pintado à proa dos barcos, tudo desvendar, desocultar, descobrir, por deus, desvelar. Não: recuso esta espécie de doutrina herética do conhecimento, banqueteada de cinzas.
Dos marinheiros o medo, dos gregos o grego, de minha mãe sua língua. E basta de poder com o que não nos pertence. O mar tem os seus segredos, eu tenho os meus.
domingo, 1 de fevereiro de 2009
i was made to love magic
Chamas-me mimética, entre outros cúmulos, mas sei que admites que talvez por isso os nossos sapatos não sejam um cais de vento, lama e lodo. Diga-se: não é o amor, é uma alegria mais complicada a que nos dedicámos os dois como propósito de ano e outras mumunhas mais. Mas voltando aos sapatos, ao cais destes irredutíveis bailarinos, bem sabemos que foram eles a razão para a nossa cabeça a mais. Uma cabeça acima para cada um, por favor.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Gonçalo M. Tavares, o boxeur
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
post sentimental por atacado
canções que são autênticos crimes com vítimas rolando pelas colinas da amada cidade, tão nossa; canções cujo deslize oblíquo em certas notas tiram o coração dos atalhos; canções que até trazem o sol à estufa, o crescimento é connosco; canções que -já disse- são um sopapo na cara do fraco.
Quais?
sábado, 24 de janeiro de 2009
A irmã Irma II
Você pinta como ele fala.
A irmã Irma I
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
pequeno inselberg
da sobrevivência
inocência isso
é balela pequena
que sempre acaba sendo
maior na minha cama.
com as caras pintadas de preto
rodeados de pretos mesmo a gente bebe
de sua vasilha o antigo
ritual da sede que a água ensina
e nós desconhecemos
e continuaremos a desconhecer,
apesar da paródia per omnia
Ao fundo, quase com desdém, alguém faz lume:
se um leopardo arde no fogo
o grupo de farsantes desanima.
Depois das queimadas a chuva,
insiste a terra.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Deixar a festa, entrar no carro, dormir de sobretudo vestido, acordar outro.
Eu sei que nenhum de nós aqui presente se sentirá minimamente confortável quando for forçado a dizer que é o cristal a base de uma desordem maior. Não há nada de natural na natureza.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
pânico nocturno
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
V.
Estou cheia de pontos finais, continuou. Tresando a tiradas triunfais de segunda apanha, tenho o espírito embuído, possuído por um zelo quase evangélico, que se dedica com fervor ao lançamento de pedras lapidares para cima de cada frase. Ó cambada de pausas proféticas, huí de mim que nada quer de vós (excepto talvez o descanso numa ou noutra glória inatacável). Pareço-me muito com uma ilha de aproximação impossível. A tudo pondo sucessivos fins. Amores, descobertas, espantos, informações, diligências, amén. Só as histórias escapam. E isso porque me entretêm. Até esta pequena déspota contrariada tem os seus momentos de descontracção. Ou deverei dizer distracção?
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
O quereres
Eu queria sempre a tua voz a crescer a crescer e a fazer-me cair.
Eu queria o mar maior, já não me purifica como a tua voz, o mar. A tua voz que veio para cavar mais ondas.
Desfaz a amplitude das tuas cordas que nasceram metálicas, cordas que são para nós um plano de fuga inatacável, cordas que abrem nós nos externos dos pobres cordeiros que somos aos pés dessa voz. Não, não, não. Três vezes não.
sábado, 3 de janeiro de 2009
cais das colunas
Claro que te dou guarida, que te abro a porta do osso miudinho, me faço una, sem costura;
Claro que podes vir, gritar contra uma parede de água, cansar-te contra qualquer um dos meus oito muros;
Claro que sou antiga, e que da lucidez futura perdi o meu vôo. E que já remei remos de madeira e piscinas vazias de noite. Claro o verbo atravessar;
Claro que esqueço;
Claro que choro duas enormes colunas à boca desse cais: Talvez não tão lentamente assim o terreiro do paço se tenha vindo a transformar no pranto de Lisboa. Ele, que era a sua boca.
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
Máquinas de guardar o sangue
A partir desse dia abandonou de uma vez o jardim. Não o descurou, não se foi desligando gradualmente daquelas que foram as rechonchudas peónias da sua vida. Não. Isso teria sido simplesmente uma des-graça. Pelo contrário, a nossa soberana senhora-ametista soube pegar nas suas malas até à lucidez que lhe restava. Pensou: Preciso de guardar o sangue. Então deixou que o jardim se transformasse para ela, que a suplantasse, que lhe entrasse em casa. Primeiro pelas frinchas, depois pelas portadas até que, galgando a principal escadaria, o jardim mesmo ganhasse a casa; deixou que ele se tornasse, de uma lenta mas inatacável vez.
E porque a ascese vinha, desde os seus sessentas, a revelar-se como a única virtude capaz de verdadeiramente lhe salvar a pele, a senhora H.Clément dedicou-se com uma fúria diária que eu prefiro chamar de bravura, ao desenho esquemático das poças de água. Machines à garder le sang, como ela lhes chamava.
Sangue, chuva. É dizer o mesmo.
sábado, 27 de dezembro de 2008
Lá, no barquito.
-Eles pertenceram um dia ao teu tio S., disse-lhe a mãe.
-Não quero saber.
Duas linhas abaixo, o tal rapazinho da história, deixa-nos olhar de frente para uns olhos cheios de perfeito entendimento do tesouro que acabara de desperdiçar. Mas eu já não quero saber. Atiro com a criança borda fora e nunca, nunca mais penso nela enquanto processo, com a devida histeria, o fundo do lago negro trespassado de algas que são afinal os famosos raios verdes do sol. Le rayon vert.
Procuro, de olhos postos no fundo, a cara do anterior dono dos óculos de mergulho.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
The lovely way to burn,
Aí vem ele. Posso, com a minha mão intacta, escrever o que não me restará- Temo que a febre me trará uma nova cara. Alva, suavíssima, que em nada se assemelha à minha, a que mereço.
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
domingo, 21 de dezembro de 2008
A estátua, como de costume, interrompe o banquete
A imensa maioria não tem língua gustativa e passa muito bem sem ela -devora com pressa bestial, tanto na comida como no desejo-, e assim a língua esconde-se, encobre a própria falha e diz, sem dizer, que não tem com que se dizer.
Só uma língua erudita diz anósmico. Ou, mais raramente ainda, agênsico.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Os Fazedores III (poesys)
A pintura, por exemplo, é o maior embuste a que o homem se dedica, século após século, camada após camada. Empanturrado que está com esse apuramento, essas camadas supostamente de mistério que, na vez de abrir, fecham, estreitam o cerco. A velatura, e digo-o de uma vez por todas antes que os incontáveis exemplos da história da arte desatem a paralisar-me, é a maior anedota da pintura, que não sossegará nunca numa forma enquanto não asfixiar o desenho, a coluna vertebral do desenho.
E tão alto que ele era, usando à cabeça, orgulhoso, a jóia de uma coisa chamada potência, anunciando tantos caminhos mesmo sendo uma coisa fechada em si, como um circuito de poderes. O desenho. Um talismã com fendas.
E ainda assim a pintura com o seu único (e comparativamente pequeno) esgar enigmático, subsiste. Muito mais do que isso: habituou-se, como se habitua uma puta velha ao longo de uma vida pontuada por maleitas, a ficar por cima. Assim nasceu o "esboço".
Pintamos porque a vida não basta, disse alguém. A vida sim basta, é quase excessiva a vida e ainda assim pintamos. E amamos.
(A cor não é para aqui chamada. A cor é uma outra coisa, sagrada. Capaz de erguer, já desde o tempo das suaves raparigas.)
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
As meninas do coro II
Mas há também o canto impaciente que a voz apenas não exprime: então um sapateado nervoso e firme o entrecorta, o "olé" que interrompe a cada instante não é mais amém, é incitamento, é touro negro.