sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Lourdes

O parco exercício dar nome próprio às coisas, de as chamar a nós, é querer para elas um futuro estreito. É não poder amá-las a não ser que possamos estar sempre a mudá-las um bocadinho. É querer que adoptem a mesma forma, é insistir na sua angularidade. Uma e outra vez, qualquer coisa que se erga concreta, concreta.
Porém o augusto ímpeto de nomear não me parece tão descabido daqui deste leito onde, à falta de filhos e de estrutura anatómica, chamo para mim o que ciranda pelo quarto e tem, quase por diversão, o meu nome na sua garganta.
Entre os outros, fixo a vontade, chamo-lhe Lourdes e ponho-a de joelhos à espera do que virá.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Imamzadeh zeid

Cantar contra a angina de peito. The, as you would put it, terrifying dread. Eu canto, sempre cantei mas agora nos corredores laterais deste santuario, numa penumbra que nada deve ao recolhimento, apenas serve uma especie de frescura, de conforto ancestral, negam-me o canto. Faco bom uso da tal penumbra e misturo-me com os demais vultos cobertos. Eles que descubram qual das insurgentes canta o fado.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

P.

não lê, não é desses. A pertencer a algum lado pertencerá, como oiço dizer por aí, aos orgulhosos não literados. Eu pela minha parte posso, com alguma franqueza, dizer que não foi nenhuma espécie de zelo evangélico que me possuiu e me fez oferecer-lhe todos os livros dela. Todos. Cronologicamente. Foi antes uma coisa muito próxima de um amor branco, um inexorável agente homogeneizador, uma capa de neve. Talvez tenha sido só dor. Sei isso porque, para além de mim, ela soube tudo o que era preciso.
Penso que não acabou nenhum. Penso que os encetou a todos- Todos a mesma história. Penso que dá o devido valor àquela imensa inteligência (que de nós também escorre, trôpega).
Pega numa frase, uma só, e foge com ela. Essa, que é a única frase escrita sobre a terra. Clarice.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Tout ébranler pour conaître l'innebranlable.


Como aquele olho que às vezes está pintado à proa dos barcos, tudo desvendar, desocultar, descobrir, por deus, desvelar. Não: recuso esta espécie de doutrina herética do conhecimento, banqueteada de cinzas.
Dos marinheiros o medo, dos gregos o grego, de minha mãe sua língua. E basta de poder com o que não nos pertence. O mar tem os seus segredos, eu tenho os meus.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

i was made to love magic

Pois nem num nem noutro lado me verás deitar.
Chamas-me mimética, entre outros cúmulos, mas sei que admites que talvez por isso os nossos sapatos não sejam um cais de vento, lama e lodo. Diga-se: não é o amor, é uma alegria mais complicada a que nos dedicámos os dois como propósito de ano e outras mumunhas mais. Mas voltando aos sapatos, ao cais destes irredutíveis bailarinos, bem sabemos que foram eles a razão para a nossa cabeça a mais. Uma cabeça acima para cada um, por favor.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Gonçalo M. Tavares, o boxeur

Não gosto do tipo, nadinha. Eu que já admiti desconfiar dos laboriosos, para este poeta da bombazine não vai nem uma ameixa do meu espanto, que eu não gosto de embustes.
Haja paciência para este maomé que me chega cravejado de milagres como se os trouxesse desde sempre. Como se fosse anterior. Como se um milagre prescindisse de tempo. De anos e anos de espera, povos inteiros, milhares de cânticos.
E depois o homem tem pressa, se tem. Deve saber melhor que ninguém que a esperteza dá para boxeur, dá para espião, mas não serve a literatura, quanto mais a poesia. «Adorar a pedra é ainda ser-se Pedra», foi o que ele não aprendeu. No entanto o prolífico senhor em nada se coíbe de usar e abusar de uma terna linguagem evasiva que se esquiva de qualquer CONSTRUÇÃO. Insulta-me na sua ostentação, este místico de trazer por casa.
É um impostor disparando pérolas. Eu sei. Os impostores, ao passarem de raspão, reconhecem-se. E não se cumprimentam.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

post sentimental por atacado

(Calçada do combro)

canções que são autênticos crimes com vítimas rolando pelas colinas da amada cidade, tão nossa; canções cujo deslize oblíquo em certas notas tiram o coração dos atalhos; canções que até trazem o sol à estufa, o crescimento é connosco; canções que -já disse- são um sopapo na cara do fraco.
Quais?

sábado, 24 de janeiro de 2009

devil's light porch on:

tii-iime is on my side,

yes it is.

A irmã Irma II

Pergunto-me se estará familiarizada com o que ele (S. Francisco de Assis) disse quando estavam prestes a cauterizar-lhe um dos globos oculares com um ferro em brasa. Assim falou: "Irmão Fogo, Deus que te fez belo e forte e útil; rezo para que sejas delicado comigo."
Você pinta como ele fala.

A irmã Irma I

Talvez fosse um palpite arrojado mas o manuscrito encontrado não se destinaria decerto à velha matriarca, mas a uma das suas inúmeras filhas de deus. Talvez, e esticando a corda até ao limite da resistência da fibra, a carta cujo achado correspondeu à única quantidade considerável de rubor a alguma vez escorrer de tais paredes desde o ano da graça de 1870 (o leitor terá achado oportuno ou não que os anteriores anos tenham ficado de fora desta pequena pudorada baliza cronológica), destinava-se, dizia então com algum arrojo, à querida irmã Irma. Freira pequena e delicada, cujos traços físicos não vou sequer tentar descrever; que apenas ora e ama a Deus. Essa mesma pequena flor a que todos nós, num ou noutro momento mais enrascado da nossa vida, nos consagrámos. E cuja notável habilidade para pintura (na íntegra, para O amar e servir) possa ter despoletado tal carta. Eu, pela minha parte ponho-me lado a lado com o autor, agnóstico, mas como ele próprio afirmava, amante à distância de S. Francisco de Assis.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

pequeno inselberg

Yeh yeh yeh faço tudo o que posso na questão
da sobrevivência
inocência isso
é balela pequena
que sempre acaba sendo
maior na minha cama.

com as caras pintadas de preto
rodeados de pretos mesmo a gente bebe
de sua vasilha o antigo
ritual da sede que a água ensina
e nós desconhecemos
e continuaremos a desconhecer,
apesar da paródia per omnia

Ao fundo, quase com desdém, alguém faz lume:
se um leopardo arde no fogo
o grupo de farsantes desanima.


Depois das queimadas a chuva,
insiste a terra.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Deixar a festa, entrar no carro, dormir de sobretudo vestido, acordar outro.

Como Parmigianino, há uns esplendorosos V (cinco) séculos atrás, deixo a pintura para me dedicar à alquimia. Os que se precipitem em rápidas conclusões que incluam alguma espécie de desamor, sua consequente apatia e a demência que desta incorre, perdem o doce vislumbre de poder, ainda que remotamente, ver os olhos esgazeados de visões de uma devota Com Uma Verdadeira Vocação.
Eu sei que nenhum de nós aqui presente se sentirá minimamente confortável quando for forçado a dizer que é o cristal a base de uma desordem maior. Não há nada de natural na natureza.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Chega a mudez
e a gente, enfim,
dela tomba.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

pânico nocturno

Dai-nos Senhor a graça de uma vida devastada pelo amor, mas livrai-nos do medo de ver a prece atendida, amén.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

V.

O segredo da ruiva não é difícil de deslindar. Padece, com violência, de uma intrincada inveja que se levanta contumaz contra quem, sem querer (que querendo é outra coisa) tece histórias; contra quem se deita e se levanta com personagens; contra quem, durante a noite, cose de uma só costura os caprichos e uma ou outra timidez recorrente; contra quem sabe atravessar os dias pelas duas pontas, e se compraz tecendo solidamente uma coisa que nunca será. Que inveja bruta e cavalar tem a ruiva aos ficcionários. Os fazedores, que tal como ela dizem coisas. Só que lhes basta um sopro:

Estou cheia de pontos finais, continuou. Tresando a tiradas triunfais de segunda apanha, tenho o espírito embuído, possuído por um zelo quase evangélico, que se dedica com fervor ao lançamento de pedras lapidares para cima de cada frase. Ó cambada de pausas proféticas, huí de mim que nada quer de vós (excepto talvez o descanso numa ou noutra glória inatacável). Pareço-me muito com uma ilha de aproximação impossível. A tudo pondo sucessivos fins. Amores, descobertas, espantos, informações, diligências, amén. Só as histórias escapam. E isso porque me entretêm. Até esta pequena déspota contrariada tem os seus momentos de descontracção. Ou deverei dizer distracção?

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O quereres

Eu queria mais a tua voz, queria mais brutais paredes em bronze para que ela ressoasse ad eternum e assim per omnia de um a outro lado, um vai e vem incessante da cabeça ao pés da deusa, para adormecer finalmente em corpo dentro de um sino e atarantar uma outra pulsão cardíaca.
Eu queria sempre a tua voz a crescer a crescer e a fazer-me cair.
Eu queria o mar maior, já não me purifica como a tua voz, o mar. A tua voz que veio para cavar mais ondas.
Desfaz a amplitude das tuas cordas que nasceram metálicas, cordas que são para nós um plano de fuga inatacável, cordas que abrem nós nos externos dos pobres cordeiros que somos aos pés dessa voz. Não, não, não. Três vezes não.

sábado, 3 de janeiro de 2009

cais das colunas

Claro que canto mais um, podes arder;
Claro que te dou guarida, que te abro a porta do osso miudinho, me faço una, sem costura;
Claro que podes vir, gritar contra uma parede de água, cansar-te contra qualquer um dos meus oito muros;
Claro que sou antiga, e que da lucidez futura perdi o meu vôo. E que já remei remos de madeira e piscinas vazias de noite. Claro o verbo atravessar;
Claro que esqueço;
Claro que choro duas enormes colunas à boca desse cais: Talvez não tão lentamente assim o terreiro do paço se tenha vindo a transformar no pranto de Lisboa. Ele, que era a sua boca.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Máquinas de guardar o sangue

Oh!, exclamou a Senhora HC do alto da sua juventude repescada- estou a perder a mão!
A partir desse dia abandonou de uma vez o jardim. Não o descurou, não se foi
desligando gradualmente daquelas que foram as rechonchudas peónias da sua vida. Não. Isso teria sido simplesmente uma des-graça. Pelo contrário, a nossa soberana senhora-ametista soube pegar nas suas malas até à lucidez que lhe restava. Pensou: Preciso de guardar o sangue. Então deixou que o jardim se transformasse para ela, que a suplantasse, que lhe entrasse em casa. Primeiro pelas frinchas, depois pelas portadas até que, galgando a principal escadaria, o jardim mesmo ganhasse a casa; deixou que ele se tornasse, de uma lenta mas inatacável vez.
E porque a ascese vinha, desde os seus sessentas, a revelar-se como a única
virtude capaz de verdadeiramente lhe salvar a pele, a senhora H.Clément dedicou-se com uma fúria diária que eu prefiro chamar de bravura, ao desenho esquemático das poças de água. Machines à garder le sang, como ela lhes chamava.
Sangue, chuva. É dizer o mesmo.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Lá, no barquito.

O par de óculos submarinos que o rapazinho de cabeça grande atira, com desdém, borda fora, foram o suficiente para acabar comigo.
-Eles pertenceram um dia ao teu tio S., disse-lhe a mãe.
-Não quero saber.

Duas linhas abaixo, o tal rapazinho da história, deixa-nos olhar de frente para uns olhos cheios de perfeito entendimento do tesouro que acabara de desperdiçar. Mas eu já não quero saber. Atiro com a criança borda fora e nunca, nunca mais penso nela enquanto processo, com a devida histeria, o fundo do lago negro trespassado de algas que são afinal os famosos raios verdes do sol. Le rayon vert.
Procuro, de olhos postos no fundo, a cara do anterior dono dos óculos de mergulho.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

The lovely way to burn,

Quanto ainda se me pode embargar por preferir os últimos lugares do delírio, incandescentes poços de lucidez intocável? Esses lugares onde, de frente para a nossa vida toda, perdemos -finalmente- o corpo. Onde o suor assume todo o esplendor que para ele sonhámos e, todo brilho, ácido e graça, se faz caudal e se põe com particular pressa a corroer a ossada.
Aí vem ele. Posso, com a minha mão intacta, escrever o que não me restará- Temo que a febre me trará uma nova cara. Alva, suavíssima, que em nada se assemelha à minha, a que mereço.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Natal, natais


Deus ama aqueles que tentam.

domingo, 21 de dezembro de 2008

A estátua, como de costume, interrompe o banquete

Minha língua diz cego quem não vê, surdo o que não ouve, mudo aquele que não fala, insensível às vezes quem perdeu o tacto, mas falta-lhe a palavra para dizer da falta de paladar. No limite minha língua só assinala ausências - a cegueira, a surdez, a mudez.
A imensa maioria não tem língua gustativa e passa muito bem sem ela -devora com pressa bestial, tanto na comida como no desejo-, e assim a língua esconde-se, encobre a própria falha e diz, sem dizer, que não tem com que se dizer.

Só uma língua erudita diz anósmico. Ou, mais raramente ainda, agênsico.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Os Fazedores III (poesys)

Só existem duas construções -e porque não me vou dar ao trabalho inglório de distinguir uma da outra, limito-me a enunciá-las- válidas na arte: a poesia e a escultura.
A pintura, por exemplo, é o maior embuste a que o homem se dedica, século após século, camada após camada. Empanturrado que está com esse apuramento, essas camadas supostamente de mistério que, na vez de abrir, fecham, estreitam o cerco. A velatura, e digo-o de uma vez por todas antes que os incontáveis exemplos da história da arte desatem a paralisar-me, é a maior anedota da pintura, que não sossegará nunca numa forma enquanto não asfixiar o desenho, a coluna vertebral do desenho.
E tão alto que ele era, usando à cabeça,
orgulhoso, a jóia de uma coisa chamada potência, anunciando tantos caminhos mesmo sendo uma coisa fechada em si, como um circuito de poderes. O desenho. Um talismã com fendas.
E ainda assim a pintura com o seu único (e comparativamente pequeno) esgar enigmático, subsiste. Muito mais do que isso: habituou-se, como se habitua uma puta velha ao longo de uma vida pontuada por maleitas, a ficar por cima. Assim nasceu o "esboço".
Pintamos porque a vida não basta, disse alguém. A vida sim basta, é quase excessiva a vida e ainda assim pintamos. E amamos.


(A cor não é para aqui chamada. A cor é uma outra coisa, sagrada. Capaz de erguer, já desde o tempo das suaves raparigas.)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

As meninas do coro II

Em torno a assistência aconchegava-se escura e suja. Depois de uma das modulações que de tão prolongada morre em suspiro, o grupo esgotado como cantor murmura um "olé" em amém, última brasa.
Mas há também o canto impaciente que a voz apenas não exprime: então um sapateado nervoso e firme o entrecorta, o "olé" que interrompe a cada instante não é mais amém, é incitamento, é touro negro.

Clarice Lispector

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

As meninas do coro

Ring the bells that still can ring, diz o homem.

não tem nada que se lhe diga, escusa a audiência de guinchar como um só porco. Dêem-me as palmas que tantos gostam, que é um sempre um bom índicio de que tudo corre para o mesmo lado. E sobretudo, meninas, sobretudo... Sabem qual é a chave disto tudo, querem que vos conte o segredo da vida? Eis o que segura esta merda toda: Meninas, meninas, continuem.... por favor, meninas, não parem de cantar.

Davega

Ó rapaz que beijas num ímpeto os arcos dos pés pequeninos, que te cortas a fazer a barba e sobes, vitorioso, as escadarias completamente desabotoado. Ó rapaz domador dos cavalos, dos casacos, dos sapatos sempre polidos, da, como dizê-lo sem me arriscar?, pontaria. Ó meu soberano senhor de magníficos pulsos nus que nunca mais deixaste um certo guiador de bicicleta, onde estás tu que não te vejo, brilhante, suado, sorridente, extático? Onde, olhar mais para onde?

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Estha

sempre foi o meu pre-ferido Pequeno-homem. Vivia numa cara-vana. Dum-dum. pelas seguintes razões 1) a t-shirt cor-de-rosa-pálido colada ao torso quando chovia 2)o modo ininputável com que se dava à chuva: sem a tocar 3) o polvo que, tal e qual como eu, trazia no externo e que, ao contrário de mim, estendia os seus tentáculos por Estha fora, emudecendo-o, roubando Estha a Estha. Tão pouco espaço que ele ocupava no mundo 4) os frascos de vidro das colecções de elásticos e dos amores-em-tóquio 5) a colher que era com a irmã, colher quente a rasgar o universo.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Amália, fome dos olhos

Chamaram a Celeste ao holofote, dura ao holofote, imprópria ao holofote, única e exclusivamente porque Celeste arrastava ainda a irmã. Tal e qual. E que maravilha. Tantas vozes a desfilar (e o meu coração numa), tanta produção inapta para a saudade - para isso que não é mais do que chamar um nome, e Meu Deus. Sim Senhora. Celeste chamou por ti nos olhos de todos que a vimos, o xaile de viés. Só a sua aparição física atazanou a falta que tu nos fazes. Oh Celeste, quero ser velha como tu, ser chamada ao palco por ser irmã.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008


ESTA ESPERA
FAZ-ME CRESCER
AS UNHAS

contra a tradução:

mas como evitar que um poliglota - que é, enfim, como dizê-lo?, um desgraçado em perpétuo equilíbrio, oscilando ora para um ora para outro lado mas cavalgando a toda a carga, para a dispersão- não se aventure na ilusão da tradução? Como dizer-lhe que as reproduções não existem. Que a tradução de um poema não passa de uma miragem: Um objecto está irreparávelmente ligado ao sítio físico, ao lugar concreto onde foi engendrado.


... à excepção da paródia.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

L'ombra della sera. Séc III a.C.

De Poggio alle Croce até aqui, a pequenina réplica em bronze repica o enigma da sua fonte. Io non so, non l'ha mai visto, mas a minha boca sabe cantar (sou dada às contradições das profecias) a favor desse minúsculo centro de poderes que um dia, ainda que longínquamente, se levantou contra a poeira vermelha por saber como eram, como são insuportáveis os fins de tarde.
Anda vem ver o levante, diriam à tua volta. E tu firme e sereno que a tua sombra haveria de perdurar, indiscernívelmente intacta no seu sentido, pelos séculos dos séculos.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

o bichanar dos vermes


Mesmo o cabrão magnânimo do César levava atrás um escravo cuja única função era sussurrar-lhe ao ouvido uma frasezinha. Só uma coisinha, enquanto o seu vitorioso senhor fazia mais uma parada triunfal pelas ruas de Roma. Penso muito nas piscinas olímpicas desses dias- as termas. Húmidas e desproporcionadas como convém a um esconderijo. De como ficarias nelas; E na tal frase. Memento Mori.

the price of love

Vinte anos de neve;
Sete anos de exílio;
Verões na cidade;
Prantos em quartos de hotel,
aniversários em quartos de hotel,
enciclopédias em quartos de hotel;
Chávenas para sempre encardidas;
Pragas de gafanhotos;
Parábolas mortas;
Mãos sem milagres;
Tudo
por tanto
ter-te mentido.

Flannery

Até agora somos o esterco do mundo,

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Vaidade das vaidades

Anatoly, que viveu há sete séculos atrás no lugar onde, atrasada a fronteira hoje se lê Ocidente mas que é igualmente, indistintamente, o vasto território espiritual da Rússia, foi o asceta que eu devia ter sido e disse:

Lembra-te do teu criador nos dias de mocidade antes que cheguem os anos (os outros)
antes que se quebre a cadeia de prata
e se despedace o copo de ouro
e se parta o cântaro, junto à fonte
e se desfaça a roda, junto ao poço,
e o pó volte à terra, como era,
e o espírito volte a Deus, que o deu.

tudo é vaidade

e é perecível.

Piove

Pára com isso, a cada deixa tua chovem inocentes guarda-chuvas (imagine-se...) disparados que vêem não sei de onde mas o que é certo é que um deles se me há de cravar no peito esmagando o externo, galgando os demais orgãos e aqui há de ficar, atravessado como uma lança assíria, com tal precisão cirúrgica- o ligeiríssimo desfazamento da lança com a sombra da lança.
Porém o dia deslizando suavemente trata de cicatrizar a vaza e se calhar, com alguma sorte, pode que com o dia claro venha também uma luz morfínica que atenue a coisa até ao cair da noite. Pois. A noite. Deixa-me abrir um parêntesis para dizer que Em rigor nem é noite, é apenas a parte inominável do dia, a que fica na sombra e por isso é indiscernível. Espanta-me como insistimos em nomeá-la, é somente o dia engolido para dentro do dia mas ainda assim é o que chega. Ah, sim.
Por isso apressa-te, diz qualquer coisa, qualquer coisa. Vem aí
a noite, essa repetição vazada do dia. Sei bem o que me espera. Tremo. Com ela chegam os teus olhos mudos para abrir o quase esquecido guarda-chuva cravado: Palavra de ventilador.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Das Lied von der Erde

Está tanto frio que em breve esta chuva intermitente e inútil, transformar-se-á em
neve e aí sim, quero ver. Que faremos nós das nossas noites brancas? Já a oiço, a rir-se
escancaradamente, uivando pelos portões abertos do mundo, rindo absurdamente como riem as senhoras para não chorar. Tem sido difícil por estes dias descortinar a canção da terra,
mas não será preciso suster a respiração para auscultar, ao longe, o coração crescente -cavalgante- da presa: cheira-me a vingança. Uma vingança branca, de execução inocente, quase doce. E inexorável.


(Já estou mesmo a ver, vai ser bonito procurar as chaves de casa, de qualquer casa, no meio da puta neve.)

Os Fazedores II


Pode um homem devotar (toda) a vida à construção laboriosa da preservação virginal da sua loucura, sem por vezes cair, mesmo sem a invocar, na lucidez?
O que é um labirinto sem engenharia, sem geometria, sem segredo e sem corrida? (Perder, perder todo, correr de pânico, galgar os ventrículos, correr. De si. Dos outros. Correr para dentro da gruta que é uma vaca desventrada, duma manhã que teve o azar de presenciar, correr como um louco). Mas sabe um louco planificar o seu caminho enredado, quantos anos terá a sua cólera, ou quantificar o sangue que será preciso? Tem os seus cânticos, que podem ou não vir de longe. Desconfio sempre das sinceras intenções de um laborioso.

Os Fazedores

A procura relaciona-se com a obra como os cogumelos se relacionam com o que já foi apanhado e está já dentro do cesto. Apenas o cesto cheio é a obra - o conteúdo é real e existe, pode tocar-se, enquanto um passeio pela floresta será sempre uma questão de ar fresco.
(d'aprés) Tarkovsky

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Machine a l'odeurs

ou La Véritable Histoire de France

No teatro circular, puxadas as carruagens a braços, cortadas as cabeças aos cavalos, colocadas as cabeçadas -suadas, como convém a uma revolução- às senhoras mais do que respeitáveis, resta muito pouco à construção de um delírio. Faltará talvez mencionar, ainda que ao de leve, os legionários dispensados que investem em bloco mas totalmente ao acaso, coitados.

terça-feira, 25 de novembro de 2008


Grande que és pela ferida que se abre pelo sono e que o dia não fecha.
Entras por aqui adentro e aqui ficas, sentada no tremendo trono da tua ignorância. Como o peixe com o menino dentro, que futuro é deixado a esta natação estrábica? Sempre a pesar para o mesmo lado, o crawl feito ele mesmo: rastejo.
Cara dura vete de mi, quiero dormir, nadar a gusto. Comer a fruta madura no limiar da podridão por creêr que a visão dos vermes me purifica a pequenina prova de natação.
Que o nojo me distraia do teu nome, a rebentar-me por dentro, boca, esófago, pleura. Amén.


Pára de me rondar ó leoa de olhos vagarosos, não vês que já rezei? Deixa-me em paz que quero dormir.

domingo, 23 de novembro de 2008

O peixe-voador

Se quero desenhar um peixe-voador, procuro pescar um ou então trago-o da praça, enfio-lhe um lápis na boca, desenho o peixe com o próprio corpo do peixe. Reduzo ao máximo a distância entre um corpo e o outro, entre o corpo real e o representado. Mas como é que enfio um lápis na garganta do teu canto?



O fado pode muito bem ser a desolada incidência do luar no vestido ou nas pernas da mulher, igualmente espantada, de costas para a noite. Descartando até qualquer diagrama, o desenho esquemático da guitarra. Pode muito bem ser qualquer coisa até verbosa (como a alma dos justos).
Mas que se foda se é esta a justeza para a vaga ordem das coisas. Se eu desenhasse como cantas tu o pobre coração do mundo rebentaria.

domingo, 16 de novembro de 2008

Aviso à leitura

Deveria talvez adiantar que cresce em mim a desconfiança de que há uma certa criança -de olhos grandes e paredes brancas espantadas ao luar- que se tem vindo a instalar com alguma desenvoltura em todas as linhas que escrevo. Hoje, e desistindo de vez da história para aqui intencionada, posso ainda avisar que a criança é, entre muitas, aquele rapazinho que algumas famílias serão capazes de reconhecer: o imão sereno, que se desfaz em sorrisos (meu pequeno buda constante) que sempre está em harmonia, que é em concordância com as flores até, mas que nunca olha na direção certa porque está morto.


Tudo o que fazemos na vida é passar de um Terreno Sagrado para outro.