Ring the bells that still can ring, diz o homem.
não tem nada que se lhe diga, escusa a audiência de guinchar como um só porco. Dêem-me as palmas que tantos gostam, que é um sempre um bom índicio de que tudo corre para o mesmo lado. E sobretudo, meninas, sobretudo... Sabem qual é a chave disto tudo, querem que vos conte o segredo da vida? Eis o que segura esta merda toda: Meninas, meninas, continuem.... por favor, meninas, não parem de cantar.
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Davega
Ó rapaz que beijas num ímpeto os arcos dos pés pequeninos, que te cortas a fazer a barba e sobes, vitorioso, as escadarias completamente desabotoado. Ó rapaz domador dos cavalos, dos casacos, dos sapatos sempre polidos, da, como dizê-lo sem me arriscar?, pontaria. Ó meu soberano senhor de magníficos pulsos nus que nunca mais deixaste um certo guiador de bicicleta, onde estás tu que não te vejo, brilhante, suado, sorridente, extático? Onde, olhar mais para onde?
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Estha
sempre foi o meu pre-ferido Pequeno-homem. Vivia numa cara-vana. Dum-dum. pelas seguintes razões 1) a t-shirt cor-de-rosa-pálido colada ao torso quando chovia 2)o modo ininputável com que se dava à chuva: sem a tocar 3) o polvo que, tal e qual como eu, trazia no externo e que, ao contrário de mim, estendia os seus tentáculos por Estha fora, emudecendo-o, roubando Estha a Estha. Tão pouco espaço que ele ocupava no mundo 4) os frascos de vidro das colecções de elásticos e dos amores-em-tóquio 5) a colher que era com a irmã, colher quente a rasgar o universo.
sábado, 13 de dezembro de 2008
Amália, fome dos olhos
Chamaram a Celeste ao holofote, dura ao holofote, imprópria ao holofote, única e exclusivamente porque Celeste arrastava ainda a irmã. Tal e qual. E que maravilha. Tantas vozes a desfilar (e o meu coração numa), tanta produção inapta para a saudade - para isso que não é mais do que chamar um nome, e Meu Deus. Sim Senhora. Celeste chamou por ti nos olhos de todos que a vimos, o xaile de viés. Só a sua aparição física atazanou a falta que tu nos fazes. Oh Celeste, quero ser velha como tu, ser chamada ao palco por ser irmã.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
contra a tradução:
mas como evitar que um poliglota - que é, enfim, como dizê-lo?, um desgraçado em perpétuo equilíbrio, oscilando ora para um ora para outro lado mas cavalgando a toda a carga, para a dispersão- não se aventure na ilusão da tradução? Como dizer-lhe que as reproduções não existem. Que a tradução de um poema não passa de uma miragem: Um objecto está irreparávelmente ligado ao sítio físico, ao lugar concreto onde foi engendrado.
... à excepção da paródia.
... à excepção da paródia.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
L'ombra della sera. Séc III a.C.
De Poggio alle Croce até aqui, a pequenina réplica em bronze repica o enigma da sua fonte. Io non so, non l'ha mai visto, mas a minha boca sabe cantar (sou dada às contradições das profecias) a favor desse minúsculo centro de poderes que um dia, ainda que longínquamente, se levantou contra a poeira vermelha por saber como eram, como são insuportáveis os fins de tarde.
Anda vem ver o levante, diriam à tua volta. E tu firme e sereno que a tua sombra haveria de perdurar, indiscernívelmente intacta no seu sentido, pelos séculos dos séculos.
Anda vem ver o levante, diriam à tua volta. E tu firme e sereno que a tua sombra haveria de perdurar, indiscernívelmente intacta no seu sentido, pelos séculos dos séculos.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
o bichanar dos vermes
Mesmo o cabrão magnânimo do César levava atrás um escravo cuja única função era sussurrar-lhe ao ouvido uma frasezinha. Só uma coisinha, enquanto o seu vitorioso senhor fazia mais uma parada triunfal pelas ruas de Roma. Penso muito nas piscinas olímpicas desses dias- as termas. Húmidas e desproporcionadas como convém a um esconderijo. De como ficarias nelas; E na tal frase. Memento Mori.
the price of love
Vinte anos de neve;
Sete anos de exílio;
Verões na cidade;
Prantos em quartos de hotel,
aniversários em quartos de hotel,
enciclopédias em quartos de hotel;
Chávenas para sempre encardidas;
Pragas de gafanhotos;
Parábolas mortas;
Mãos sem milagres;
Tudo
por tanto
ter-te mentido.
Sete anos de exílio;
Verões na cidade;
Prantos em quartos de hotel,
aniversários em quartos de hotel,
enciclopédias em quartos de hotel;
Chávenas para sempre encardidas;
Pragas de gafanhotos;
Parábolas mortas;
Mãos sem milagres;
Tudo
por tanto
ter-te mentido.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Vaidade das vaidades
Anatoly, que viveu há sete séculos atrás no lugar onde, atrasada a fronteira hoje se lê Ocidente mas que é igualmente, indistintamente, o vasto território espiritual da Rússia, foi o asceta que eu devia ter sido e disse:
Lembra-te do teu criador nos dias de mocidade antes que cheguem os anos (os outros)
antes que se quebre a cadeia de prata
e se despedace o copo de ouro
e se parta o cântaro, junto à fonte
e se desfaça a roda, junto ao poço,
e o pó volte à terra, como era,
e o espírito volte a Deus, que o deu.
tudo é vaidade
e é perecível.
Lembra-te do teu criador nos dias de mocidade antes que cheguem os anos (os outros)
antes que se quebre a cadeia de prata
e se despedace o copo de ouro
e se parta o cântaro, junto à fonte
e se desfaça a roda, junto ao poço,
e o pó volte à terra, como era,
e o espírito volte a Deus, que o deu.
tudo é vaidade
e é perecível.
Piove
Pára com isso, a cada deixa tua chovem inocentes guarda-chuvas (imagine-se...) disparados que vêem não sei de onde mas o que é certo é que um deles se me há de cravar no peito esmagando o externo, galgando os demais orgãos e aqui há de ficar, atravessado como uma lança assíria, com tal precisão cirúrgica- o ligeiríssimo desfazamento da lança com a sombra da lança.
Porém o dia deslizando suavemente trata de cicatrizar a vaza e se calhar, com alguma sorte, pode que com o dia claro venha também uma luz morfínica que atenue a coisa até ao cair da noite. Pois. A noite. Deixa-me abrir um parêntesis para dizer que Em rigor nem é noite, é apenas a parte inominável do dia, a que fica na sombra e por isso é indiscernível. Espanta-me como insistimos em nomeá-la, é somente o dia engolido para dentro do dia mas ainda assim é o que chega. Ah, sim.
Por isso apressa-te, diz qualquer coisa, qualquer coisa. Vem aí a noite, essa repetição vazada do dia. Sei bem o que me espera. Tremo. Com ela chegam os teus olhos mudos para abrir o quase esquecido guarda-chuva cravado: Palavra de ventilador.
Porém o dia deslizando suavemente trata de cicatrizar a vaza e se calhar, com alguma sorte, pode que com o dia claro venha também uma luz morfínica que atenue a coisa até ao cair da noite. Pois. A noite. Deixa-me abrir um parêntesis para dizer que Em rigor nem é noite, é apenas a parte inominável do dia, a que fica na sombra e por isso é indiscernível. Espanta-me como insistimos em nomeá-la, é somente o dia engolido para dentro do dia mas ainda assim é o que chega. Ah, sim.
Por isso apressa-te, diz qualquer coisa, qualquer coisa. Vem aí a noite, essa repetição vazada do dia. Sei bem o que me espera. Tremo. Com ela chegam os teus olhos mudos para abrir o quase esquecido guarda-chuva cravado: Palavra de ventilador.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Das Lied von der Erde
Está tanto frio que em breve esta chuva intermitente e inútil, transformar-se-á em
neve e aí sim, quero ver. Que faremos nós das nossas noites brancas? Já a oiço, a rir-se
escancaradamente, uivando pelos portões abertos do mundo, rindo absurdamente como riem as senhoras para não chorar. Tem sido difícil por estes dias descortinar a canção da terra,
mas não será preciso suster a respiração para auscultar, ao longe, o coração crescente -cavalgante- da presa: cheira-me a vingança. Uma vingança branca, de execução inocente, quase doce. E inexorável.
(Já estou mesmo a ver, vai ser bonito procurar as chaves de casa, de qualquer casa, no meio da puta neve.)
neve e aí sim, quero ver. Que faremos nós das nossas noites brancas? Já a oiço, a rir-se
escancaradamente, uivando pelos portões abertos do mundo, rindo absurdamente como riem as senhoras para não chorar. Tem sido difícil por estes dias descortinar a canção da terra,
mas não será preciso suster a respiração para auscultar, ao longe, o coração crescente -cavalgante- da presa: cheira-me a vingança. Uma vingança branca, de execução inocente, quase doce. E inexorável.
(Já estou mesmo a ver, vai ser bonito procurar as chaves de casa, de qualquer casa, no meio da puta neve.)
Os Fazedores II
Pode um homem devotar (toda) a vida à construção laboriosa da preservação virginal da sua loucura, sem por vezes cair, mesmo sem a invocar, na lucidez?
O que é um labirinto sem engenharia, sem geometria, sem segredo e sem corrida? (Perder, perder todo, correr de pânico, galgar os ventrículos, correr. De si. Dos outros. Correr para dentro da gruta que é uma vaca desventrada, duma manhã que teve o azar de presenciar, correr como um louco). Mas sabe um louco planificar o seu caminho enredado, quantos anos terá a sua cólera, ou quantificar o sangue que será preciso? Tem os seus cânticos, que podem ou não vir de longe. Desconfio sempre das sinceras intenções de um laborioso.Os Fazedores
A procura relaciona-se com a obra como os cogumelos se relacionam com o que já foi apanhado e está já dentro do cesto. Apenas o cesto cheio é a obra - o conteúdo é real e existe, pode tocar-se, enquanto um passeio pela floresta será sempre uma questão de ar fresco.
(d'aprés) Tarkovsky
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Machine a l'odeurs
ou La Véritable Histoire de France
No teatro circular, puxadas as carruagens a braços, cortadas as cabeças aos cavalos, colocadas as cabeçadas -suadas, como convém a uma revolução- às senhoras mais do que respeitáveis, resta muito pouco à construção de um delírio. Faltará talvez mencionar, ainda que ao de leve, os legionários dispensados que investem em bloco mas totalmente ao acaso, coitados.
No teatro circular, puxadas as carruagens a braços, cortadas as cabeças aos cavalos, colocadas as cabeçadas -suadas, como convém a uma revolução- às senhoras mais do que respeitáveis, resta muito pouco à construção de um delírio. Faltará talvez mencionar, ainda que ao de leve, os legionários dispensados que investem em bloco mas totalmente ao acaso, coitados.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Grande que és pela ferida que se abre pelo sono e que o dia não fecha.
Entras por aqui adentro e aqui ficas, sentada no tremendo trono da tua ignorância. Como o peixe com o menino dentro, que futuro é deixado a esta natação estrábica? Sempre a pesar para o mesmo lado, o crawl feito ele mesmo: rastejo.
Cara dura vete de mi, quiero dormir, nadar a gusto. Comer a fruta madura no limiar da podridão por creêr que a visão dos vermes me purifica a pequenina prova de natação.
Que o nojo me distraia do teu nome, a rebentar-me por dentro, boca, esófago, pleura. Amén.
Pára de me rondar ó leoa de olhos vagarosos, não vês que já rezei? Deixa-me em paz que quero dormir.
domingo, 23 de novembro de 2008
O peixe-voador
Se quero desenhar um peixe-voador, procuro pescar um ou então trago-o da praça, enfio-lhe um lápis na boca, desenho o peixe com o próprio corpo do peixe. Reduzo ao máximo a distância entre um corpo e o outro, entre o corpo real e o representado. Mas como é que enfio um lápis na garganta do teu canto?
O fado pode muito bem ser a desolada incidência do luar no vestido ou nas pernas da mulher, igualmente espantada, de costas para a noite. Descartando até qualquer diagrama, o desenho esquemático da guitarra. Pode muito bem ser qualquer coisa até verbosa (como a alma dos justos).
Mas que se foda se é esta a justeza para a vaga ordem das coisas. Se eu desenhasse como cantas tu o pobre coração do mundo rebentaria.
domingo, 16 de novembro de 2008
Aviso à leitura
Deveria talvez adiantar que cresce em mim a desconfiança de que há uma certa criança -de olhos grandes e paredes brancas espantadas ao luar- que se tem vindo a instalar com alguma desenvoltura em todas as linhas que escrevo. Hoje, e desistindo de vez da história para aqui intencionada, posso ainda avisar que a criança é, entre muitas, aquele rapazinho que algumas famílias serão capazes de reconhecer: o imão sereno, que se desfaz em sorrisos (meu pequeno buda constante) que sempre está em harmonia, que é em concordância com as flores até, mas que nunca olha na direção certa porque está morto.
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