domingo, 23 de novembro de 2008

O peixe-voador

Se quero desenhar um peixe-voador, procuro pescar um ou então trago-o da praça, enfio-lhe um lápis na boca, desenho o peixe com o próprio corpo do peixe. Reduzo ao máximo a distância entre um corpo e o outro, entre o corpo real e o representado. Mas como é que enfio um lápis na garganta do teu canto?



O fado pode muito bem ser a desolada incidência do luar no vestido ou nas pernas da mulher, igualmente espantada, de costas para a noite. Descartando até qualquer diagrama, o desenho esquemático da guitarra. Pode muito bem ser qualquer coisa até verbosa (como a alma dos justos).
Mas que se foda se é esta a justeza para a vaga ordem das coisas. Se eu desenhasse como cantas tu o pobre coração do mundo rebentaria.

domingo, 16 de novembro de 2008

Aviso à leitura

Deveria talvez adiantar que cresce em mim a desconfiança de que há uma certa criança -de olhos grandes e paredes brancas espantadas ao luar- que se tem vindo a instalar com alguma desenvoltura em todas as linhas que escrevo. Hoje, e desistindo de vez da história para aqui intencionada, posso ainda avisar que a criança é, entre muitas, aquele rapazinho que algumas famílias serão capazes de reconhecer: o imão sereno, que se desfaz em sorrisos (meu pequeno buda constante) que sempre está em harmonia, que é em concordância com as flores até, mas que nunca olha na direção certa porque está morto.


Tudo o que fazemos na vida é passar de um Terreno Sagrado para outro.